O ódio, o amor e a verdade inexorável

Há um poema ‘muito famoso’ chamado ‘Verdade Inexorável’, que diz:
“Mais que de repente
Surge o grito da morte,
O grito da dor,
Dos impropérios de toda sorte.
Mais que de repente,
Aflora um sentimento sólido,
Doído e violento,
Que flameja nos olhos
E sobrepõe o amor.
O ódio que se alastra,
Toma conta
E erradica a razão.
O ódio é vírus sem vacina,
Está presente em cada esquina,
Na imagem de um mundo cão.
Não há autoimunidade,
Ninguém é assintomático.
Ele surge, mais dia, menos dia,
Como uma onda fervente
Que corre pelas veias,
Bombeada pelo coração.
Ódio não é indiferença,
O ódio não tem cura,
O ódio não se extingue,
Muito menos se substitui.
O ódio não é uma escolha,
Ele é a verdade inexorável.
Com o ódio se convive,
Expelindo diuturnamente
Gotículas de fúria e danação.”
O ódio, travestido de rancor, arrependimento e melancolia, sobrepõe ao amor, restringe esse sentimento tão sublime e infesta o ambiente de males físicos e psíquicos.
Eu sei que é uma filosofia barata e análise psicológica primitiva, mas é por aí mesmo.
Mas, o que me trouxe a lembrança desse poema foi o convite que, dia desses, um amigo me fez para um churrasco. Disse ele que bancaria a festa e que eu não precisava me preocupar com nada e ainda perguntou se eu queria algum corte específico. Foi um verdadeiro gesto de amor.
Eu disse que não precisava de nada especial. Perguntei se era aniversário de alguém, ele disse não. Sinceramente, achei muito estranho.
Chegando lá, havia umas quinze pessoas na casa. Apesar dos sorrisos, havia algo nebuloso no ar, algo pesado, uma artificialidade palpável.
Fui recebido pela esposa do meu amigo que, muito educada, perguntou do seu modo excêntrico: _ Tu estás bem?
E eu, sempre confuso no uso da segunda pessoa do singular, respondi: _ Estois.
Levei algumas latas de cervejas, um refrigerante de dois litros e um pacote de tulipa recheada de catupiry.
Meu amigo bebeu, comeu e dançou até na ‘boquinha da garrafa’. Apresentava uma euforia incomum.
Na primeira oportunidade a sós com ele, perguntei o que se passava, por que tanta felicidade, tanta comemoração.
Ele baixou a voz e pediu que guardasse segredo e perguntou se eu me lembrava do ‘Porcão’.
Pois bem, ‘Porcão’ era o apelido de um valentão da época da escola, um moleque mais velho, mais alto e mais forte que praticava ‘bullying’ contra a gente. Confesso que era aterrorizante quando ele nos escolhia como alvo.
Certa vez, ele quase matou esse meu amigo, enfiou a cabeça dele num latão de água e segurou por um bom tempo. Em outra, o humilhou na frente de todo mundo dando-lhe tapas na cara.
Era o terror quando o ‘Porcão’ ameaçava ‘vou te pegar na saída’, que era o presságio de uma surra.
Então é claro que eu me lembrava daquele sujeito infernal. E até onde eu sabia, já adulto fora preso por dar uns tapas na orelha da esposa e, depois, sumiu do mapa.
_ Pois é, ele morreu semana passada. De acidente. – disse meu amigo.
_ Peraí! Você está dizendo que nós estamos comemorando a morte de uma pessoa? – falei baixinho.
_ Sim! Mas fica entre nós, não quero criar um clima ruim. – completou meu copo com cerveja e deu pra perceber um sutil marejar em seus olhos, era o rancor que se materializava na minha frente.
_ Cara, você guarda isso até hoje? Isso te faz mal. Promete que vai procurar ajuda?
_ Agora estou vingado. Se eu for para o inferno por causa disso, tudo bem! Vou pagar essa dívida.
Lembrei da época da escola, do ‘bullying’ que sofremos, do qual não nos esquecemos.
E também me recordei vagamente do ‘bullying’ que praticamos, já que todo mundo tem um pouquinho de ‘Porcão’ dentro de si.
Sensibilizado, dei-lhe um abraço e o que eu disse logo depois talvez contradiga sobre a força do ódio frente ao amor. Sabendo de tudo que ele sofreu nas mãos do ‘Porcão’, levantei o copo e disse:
_ Pois, meu amigo, essa dívida você não paga sozinho. Vamos enfrentar juntos o inferno! Um brinde pela morte do desgraçado.








