Dieta de luz

Eu estava na cozinha fazendo café enquanto minha esposa cuidava de preparar uma lasanha para o almoço de domingo. Estamos nos esforçando para dividir os afazeres da casa, mas as marcas do machismo secular definitivamente atrapalham. É fácil perceber que o espaço da cozinha não dá para duas pessoas atuarem confortavelmente. Quando trabalhamos juntos, eu e ela, fica sempre a sensação desagradável de que estou ocupando espaço dela…
Mas, enquanto nos esbarrávamos procurando ceder espaço um ao outro, ela observou: “Gostaria de me alimentar de luz… Que a gente se nutrisse de luz! Dispensaríamos essa tralha de utensílios e móveis da cozinha… Pensa, quanto trabalho economizaríamos!” Então, comecei a pensar nisso, até porque já ouvi que havia uma comunidade, não sei onde, que se alimentava de luz, apenas encarando o Sol uma ou duas vezes por dia. A conversa prosseguiu e concluímos que a maior parte do nosso tempo gasto, vida afora, está relacionada com a alimentação.
Manter a vida em boas condições de saúde exige um trabalho imenso de cada um de nós, não resta dúvidas. Pelos padrões sociais atuais, precisamos de pelo menos três refeições por dia para vivermos com dignidade. A ciência diz que para manter boa saúde precisamos de bem mais do que isso! Por isso, com um sistema de alimentação sutil, à base de energia direta, quem sabe através da luz solar, dispensaríamos muita coisa em casa: despensa, geladeira, boa parte dos armários, fogão, forno micro-ondas, pia de lavar louças, as próprias louças com todos os utensílios. Até as mesas de refeições cairiam em desuso.
Mas, antes de ir muito longe me assustei: o que faríamos com o tempo que gastamos para prover os meios, procurar e preparar comida? – que equivale a ganhar dinheiro para as compras do supermercado, da padaria, do varejão, que é como chamamos o mercadinho de hortifruti por aqui, da drogaria, que nos fornece os suplementos alimentares – aos que têm mais idade e acesso a eles… Ao que ela ponderou: “ajudaríamos outras pessoas… Há muita gente precisando de ajuda no mundo!” De novo, obtemperei: nesse caso, se apenas nós e mais ninguém se alimentasse de luz, certo?
Porque, se todos passassem a se alimentar de luz, provavelmente ninguém precisaria de ajuda! A vida ficaria muito mais barata. E continuei criticando a ideia, não para combatê-la, mas, no sentido de aferir suas possíveis implicações nas condições que a vida impõe a todos nós no atual estágio evolutivo em que nos encontramos.
Minha esposa, depois de pensar um pouco completou: “poderíamos gastar o tempo que sobrar viajando, conhecendo novos lugares…” Passei a pensar nisso também. Imagina, os catálogos de hotéis e das pousadas oferecendo diárias com cama e um mirante com poltronas confortáveis para recargas de energia solar. Nem dos banhos diários precisaríamos mais. Nada de café da manhã, refeições completas, comidas típicas regionais. Naturalmente não teríamos possibilidades de jantares em restaurantes elegantes, de passeios às praças de alimentação de shoppings, a pizzarias atraentes… E não é só isso, não veríamos pelas estradas as fazendas com plantações de milho, soja, café nem pomares. Imagine, viajar de automóvel por Minas Gerais sem as paradas naquelas casas especializadas em doces e queijos das beiras de estradas!
Por outro lado, haveria vantagens na alimentação de luz: seriam abolidas as indústrias de alimentos enlatados, frigoríficos, supermercados, padarias e dezenas de empreendimentos correlatos. Com isso eliminaríamos drasticamente a poluição do ar, das águas, dos solos, dos mares. Não teríamos estações de tratamento de esgotos, aterros sanitários ou lixões, porque grande parte dos resíduos que estão entupindo o planeta decorre de embalagens de alimentos e produtos afins. Os empregos seriam reduzidos a um percentual diminuto dos patamares atuais. Mas, certamente a fome não mais atormentaria a espécie humana!
Naturalmente que na conversa eu fazia o papel do advogado do Diabo e minha esposa o da advogada da Luz. E concluímos que é preciso muita evolução ainda para abandonarmos o atual padrão de vida da espécie. Por ora, planejamos substituir o automóvel por um outro que utilize energia elétrica em vez de combustíveis fósseis. Depois, quem sabe, uma alimentação totalmente vegana entre na nossa mira.








