Opiniões

Voltas às aulas e a concepção da educação paulista

A volta às aulas é sempre um momento aguardado por pais, educandos e educadores. Toda a comunidade escolar se mobiliza para receber e acolher os nossos jovens para mais um ano letivo. Contudo, esse ano teremos uma novidade: um novo governo, de uma outra tendência política, que irá governar São Paulo, depois de quase 30 anos ininterruptos do PSDB no Palácio dos Bandeirantes. 

A rede estadual de ensino é gigantesca, estamos falando de um orçamento de  49,5 bilhões para 4 milhões de estudantes, 250 mil professores distribuídos em 5130 escolas estaduais, isso sem contar as direções de ensino a gestão e os agentes de organização escolar que viabilizam para que seja possível a realização da educação no Estado. Esses dados podem ser facilmente verificados nos sites do governo.

Para gestar essa rede, o governador Tarcísio de Freitas, trouxe do Paraná, Renato Feder, que entre uma coisa e outra, já foi recentemente presidente do conselho da empresa Multilaser Eletrônicos S/A. Essa empresa tem contratos milionários com o Estado de São Paulo, principalmente, adivinhem onde? Isso mesmo na educação.

Feder, em sua fala para os professores, inclusive usando o mesmo “power point” que usou no início da sua gestão frente à Secretária de Educação do Paraná, mostrou uma pirâmide de ponta cabeça onde quem está no topo são os professores, seguidos pelos gestores, pela direção de ensino e SEDUC.


Em um primeiro momento, o discurso de que irá valorizar a educação, e o professor de chão de sala aula, ou seja, desburocratizar para que o professor fique por conta apenas de “dar aula”, soa muito bem nos ouvidos mais desatentos.

Entretanto, analisando mais à fundo, percebe-se na verdade algo muito perigoso, que é sobrecarregar o professor com funções que não são suas, para reduzir ao máximo o custo escolar e então preparar a escola para ser privatizada. No Paraná foram privatizadas às pressas 27 escolas que atendem a 22 mil estudantes. Mas a intenção é que mais escolas sejam privatizadas nos próximos anos.

O problema da educação no Brasil e em São Paulo nunca foi de gestão. Temos profissionais muitos qualificados em toda a estrutura do sistema, professores bem formados e dedicados. O problema também nunca foi de currículo, o nosso Nacional e Estadual pode ser manipulado conforme a necessidade de cada educando.

Assim, a pergunta seria, qual então é o problema? A resposta é simples e complexa ao mesmo tempo, e para respondê-la seria necessário uma tese, mas podemos nos atrever em dizer que é de concepção.

Nossa educação não forma indivíduos democráticos, criativos e preparados para viver em sociedade. Forma, na realidade, indivíduos castrados em sua criatividade, autoritários porque são encarcerados toda sua vida escolar e disciplinados para serem resilientes frente a exploração do trabalho.

Países que tem PIB menor que do Estado de São Paulo, que é da ordem de 3 trilhões de reais e que se fosse um país, seria a 3ª. economia da América Latina e a 21ª. do mundo, estão à frente do Brasil e São Paulo. Só a título de exemplo, a Finlândia tem o PIB que é um pouco menos da metade do Estado, e tem a melhor educação do mundo.

Assim, uma questão se coloca, qual o segredo? Às vezes tendemos responder que é investimento, contudo, a pasta com mais capacidade de investimento em São Paulo é justamente a da educação. Mas, o sucesso das 10 melhores em educação se explica pela aplicação de uma receita brasileira.

Contraditoriamente, o nosso patrono é o educador Paulo Freire, que passou nos últimos anos sendo linchado por setores conservadores e mais a direita da sociedade. Mas, apesar da educação tê-lo como patrono, o Brasil e muito menos São Paulo, usa Paulo Freire como base teórica para Educação.

Paulo Freire, é o intelectual brasileiro mais citado em trabalhos acadêmicos no mundo, e, ao contrário do que se pensa, não é com relação ao recorte politico que ele tinha, mas o seu método, onde nesses países que até há 30 anos atrás tinham números piores do que o Brasil, se mostraram extremamente eficientes em recuperar a educação.

A educação nesses países é centrada em dar sentido ao conhecimento empoderando as classes populares de saberes úteis à sociedade, e os educando para serem radicalmente democráticos e livres. Nessa lógica, a escola passa ser um espaço de desenvolvimento em todos os sentidos, seja tecnológico, seja democrático ou seja para a vida. 

Em uma entrevista para o documentarista Michael Moore em 2015, no documentário “Where to Invade Next” (Onde Invadir a Seguir), a ministra da educação da Finlândia respondeu que o segredo do sucesso, era educar para ser feliz! Aqui, infelizmente, fizeram a opção por uma educação dita “eficiente”, “baseada no currículo”, “no trabalho”, nas “competências e habilidades”, mas, que na realidade produzem e aprofundam desigualdades. Quem sabe, um dia, não nos inspiremos nos Finlandeses e usamos a receita brasileira de educar para ser feliz?

Carlos Machado

É Professor Historiador e Militante do PCB.

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