Tudo Importa

Eu arrumava umas coisas na cozinha e me deparei com uma metade de bolo cheia de formigas miúdas, num canto da bancada. A ligeira irritação e a vontade instintiva de borrifar formicida passou logo que refleti um pouco. Primeiro, não era boa ideia borrifar veneno na bancada em que preparamos alimentos; segundo, o pedaço de bolo estava ali havia uns dois dias, fora da geladeira, e estava estragado. Não iríamos, mesmo, aproveitá-lo. E, ainda mais: no final das contas, temos plena consciência de que a Natureza funciona assim mesmo! Está sempre em movimento, criando modificando, destruindo, recomeçando. Até conosco é assim: basta que paremos de movimentar e ela já nos toma, a nós mesmos, como matéria prima para outros usos! Mas, devo confessar que foi pela nossa segurança que resolvi poupar as formigas, embora o ato me tenha proporcionado certo conforto inexplicável que me pôs a refletir.
Enfim, é muito lógico que a Natureza disponha dos nossos produtos da despensa, da geladeira, do armário, quando deles descuidamos! Sabemos de tudo isso, mas teimamos em discordar do ritmo natural das coisas. É compreensível que nos esforcemos para controlar o mato que avança no quintal, para afugentar os animais que surgem nos espaços (deles) por nós ocupados, ou que tentemos controlar até o tempo! É porque a vida consiste nisso: em enfrentar e vencer os obstáculos da Natureza, no tempo e no espaço perecíveis que ela nos proporciona, até o ponto em que ela nos vence e nos retoma. Se queremos viver, temos que nos dispor a enfrentar obstáculos. Até a derrota final! Tudo naturalmente, é claro!
Por um outro plano, o comportamento humano de lutar para controlar tudo é também compreensível do ponto de vista histórico: um dia desses ainda – há dez mil anos – estávamos de igual para igual no meio natural. Mas hoje, alçados à condição de homo sapiens, manter um pouco de atenção e cuidado diante do fenômeno da vida é recomendável. Não é sem razão que somos considerados sapiens! Sabemos! Sabemos e somos fortes, já domamos quase tudo que se move na face da Terra e não dá para agir como irresponsáveis, como inconsequentes. Enfim, talvez seja hora de pensar além dos interesses exclusivos da espécie humana. Um modo gentil e atualizado de evoluir!
Não é despropositado, portanto, um pouco de cuidado com ambiente em que conosco convivem milhares de espécies. Não apenas por interesse exclusivo, mas, por razões éticas ou de respeito pela vida e por todas as suas formas de manifestação. Respeito pelo extraordinário sistema que milagrosamente se mantém funcionando de modo espontâneo, apesar do esforço e das interferências humanas em sentido contrário.
Sabemos que a complexa sociedade humana, instalada nos ambientes artificiais das cidades, criou necessidades desvinculadas do ambiente natural, fazendo crer que ele se tornou dispensável, desnecessário. Parques e reservas da biodiversidade, salvo para as comunidades científicas e para os ambientalistas, servem, quando muito, para o lazer e para pesquisas com objetivos econômicos. São mantidos enquanto as áreas que ocupam não sejam necessárias para fins do agronegócio. Na prática, os governos têm interesses econômicos apenas!
Essa é uma conclusão extraída da postura política adotada pelos governos dos últimos anos no Brasil. Infelizmente. Uma visão equivocada, viciada por um materialismo exacerbado e egocêntrico. Não seria mais correto começar a entender que tudo importa, não só o interesse humano? Claro que a maioria das pessoas que são conduzidas e ainda lutam pela subsistência, não têm tempo de pensar nessas coisas. Mas, e para aqueles que conduzem as massas, que administram as riquezas do planeta? Talvez esteja aí uma boa dica para a próxima escolha do presidente do Brasil!
As opiniões aqui publicadas não refletem necessariamente a opinião da Folha de Franca.









