Telas e mais telas! Como é importante tê-las!

Desde que se tem notícia da existência humana sabe-se que é típico do homem reproduzir façanhas, medos e desejos, seja em paredes de cavernas, em peles de animais ou até mesmo no próprio corpo. O que passou a ser chamado de “raça humana‟ vai ao longo dos séculos perdendo suas características mais primitivas e passa a exercitar a dádiva da inteligência, ganhando refinamento nos gostos e modos e com isso começa a criar, a inventar e se superar a cada dia mais.
A necessidade, porém, de externar suas façanhas, seus medos e desejos continua presente. Das paredes das cavernas o indivíduo passa a desenhar e pintar em tudo que vê pela frente e transfere para as urnas obituárias, pergaminhos, depois para as iluminuras, paredes das igrejas e para telas de quadros e telas e mais telas, todos os temas sagrados e profanos de seu cotidiano. E assim as representações foram tomando vultos e formatos diferentes e vieram o teatro, a dança e um efeito dominó de demonstrações de expressões da sociedade e do ser individual.
Com o advento do cinema, o teatro pula para outros palcos e sua efemeridade desaparece fazendo com que a telona do cinema fosse um canvas em eterna mutação, permitindo a junção de várias artes para que uma história fosse contada e perpetuada nos rolos de filmes. As telas dos cinemas servem até hoje como forma representativa genuína dos anseios humanos, ora para mostrar as alegrias de um musical, ora para retratar as dores dos miseráveis. O cinema que já foi mudo e em preto e branco acelerou a passos largos rumo à tecnologia mais apurada. As telas cada vez maiores e o som cada vez mais puro e cristalino estimularam a criatividade de grandes mestres como Chaplin, Hitchcock, Copolla, Felini, Spielberg, Tarantino e tantos outros. Efeitos especiais e trilhas sonoras dignas do esmero dos clássicos acadêmicos tornam-se então necessidade para o sucesso de uma película.
O homem gostou tanto de ver seus sonhos realizados na sua frente que trouxe a tela para dentro de casa, hoje companheira de todas as horas. As telonas dos cinemas, as telas das televisões e, de uns tempos pra cá, as telas dos computadores e telefones celulares tomaram uma proporção enorme em nosso cotidiano que não se pode negar. E são estes portais para o onírico, estas catapultas para o imaginário que fazem com que nossos dias sejam mais ricos em informação e entretenimento.
Para essas telas diversas foram criadas linguagens próprias. O ator, que até então só era visto no teatro, passa a adaptar seus conhecimentos a elementos estranhos ao palco como microfones e enquadramentos de câmera. A dança, a indumentária, a maquiagem e até mesmo os textos dramáticos passam a sofrer alterações para oferecer pelas telas do cinema, televisão, computador e celular a noção de realismo que certamente difere dessas noções num palco de teatro.
Obviamente que a música recebeu uma nova roupagem e também vem sofrendo alterações com o tempo. No início, quando o cinema era mudo, ainda não havia as salas de “Cinema” como prédios como os de hoje em dia. Os mesmos teatros que abrigavam peças teatrais e balés passaram a receber os filmes e nos fossos desses teatros (aquele buraco que fica na frente do palco para esconder a orquestra) havia ou um pianista ou até mesmo pequenas orquestras que executavam os temas musicais e efeitos sonoros durante o filme. Ou seja, quando a cidade recebia um rolo do filme X ele vinha também com as partituras para serem tocadas e todas as orientações para o músico de como executar tais peças. Quando o progresso trouxe o som para as películas então a música veio de mãos dadas e a partir daí é o que temos até hoje.
A sétima arte criou consigo praticamente um novo estilo musical: o “Soundtrack” ou a “Trilha sonora” ocupa lugar de destaque na concepção de um filme, de uma novela e até de um desenho animado. Mestres absolutos como Henry Manccini, Enio Morriconi e John Williams, imortalizaram suas obras no olhar de uma “Bonequinha de Luxo” ou no fio cortante de uma faca de Norman Bates. Difícil imaginar a cena da banheira de “Psicose” sem a música, assim como seria impossível ver Tara e os cabelos esvoaçantes de Scarlet O’hara sem o fundo musical. Essas músicas de cinema e posteriormente de televisão passam a ser parte de nossa memória afetiva e aliar música aos personagens é algo que na ópera denominamos Leitmotiv e que funciona muito bem em qualquer tamanho de tela. Se ouvirmos “Dona”, de de Sá e Guarabira, já voltamos no tempo vendo praticamente na nossa frente a viúva Porcina; se ouvimos Celine Dion cantando “You‟re here there‟s nothing I fear” já estamos naufragando com o Titanic.
A facilidade da tecnologia trouxe para a palma das nossas mãos tudo o que eu falei acima. Filmes, novelas, balés e concertos podem ser acessados a qualquer momento em nossos celulares e esse imediatismo da comunicação, muitas vezes também levada para o lado tortuoso da comunicação com as tais fake news, faz com que nossa geração seja privilegiada no que diz respeito às mais diversas possibilidades que essas telas modernas oferecem.
Antigamente ir ao cinema era um evento! Ver televisão um jogo de sorte, pois a tal antena nem sempre colaborava. Lembro-me da grande aquisição que foi a compra da nossa primeira televisão colorida! Eu não podia acreditar que aquela caixa enorme estava me mostrando tudo com cor real! Gente, eu não sou tão velho assim! Mas a minha televisão era com válvulas!!! Abafa… Só sei que fazendo uma análise dessas maravilhas do progresso, vejo que em tempos de pandemia são essas telas mais portáteis que nos preenchem o vazio e nos tiram o tédio, mas, é justo nesse tempo de pandemia que percebemos a falta que faz o “evento” que é ir ao cinema e que ninguém mais estava se dando conta!
Que delícia poder ouvir e ver tudo em superlativo! Que maravilha é comprar nachos com chedar e Coca-Cola e ficar depois procurando economizar o guardanapo que não dá conta da lambança! Que ótimo para quem gosta de pipoca poder também deixar boa parte do seu salário no combo especial, que dá raiva de pagar, mas que vale cada centavo. Espero que tudo isso volte logo e que as telas do celular e da TV recebam o descanso necessário para dividirmos nosso tempo com essa arte que também está morrendo de saudades do público!







