E houve em mim o Natal!

Era 2015. A poucos dias do Natal, percorri as ruas de Curitiba. Fui ali pelo Centro, da Universidade Federal até a Rua Saldanha Marinho, passando além da rua do rio. Não sei se a repetição da data (já eram mais de 40 Natais!), ou a prevalência do comércio numa data que deveria ser majoritariamente espiritual, não sei ao certo o que era, mas o fato é que o Natal que estava nas ruas não estava em mim.
E era bom que não estivesse, pois o Natal das ruas me parecia vazio. Papais noéis esquálidos e protocolares diante das lojas dos turcos se arrastavam para cumprir o expediente enfadonho. Moças e rapazes com camisetas de telefônicas abordavam os transeuntes com seus panfletos cheios de ofertas maliciosas. Eu mesmo recusei um plano – que me garantiria ligações intermináveis – por desconfiança e por absoluta preguiça de falar além do necessário. A Rua XV de outros Natais era tão mais bonita, talvez porque eu visse as coisas com olhos de criança. Devia ser isso. Era de fato isso.
Depois de um tempo a gente desconfia de tudo, como se quisesse antever o golpe, a maldade, o bote da cobra contra a nossa carne e o veneno sendo instilado, gota a gota, no sangue da gente. Um mendigo veio me pedir moedas e eu disse que não as tinha, mas juro que pensei comigo “Baita marmanjo, que vá trabalhar!”. Neguei as moedas e segui adiante sem remorso. Meia quadra à frente uma cigana quis ler minha mão em troca de moedas. Não me dei ao trabalho de ouvir qual era a proposta: “Hoje, não!”, disse querendo dizer: “Hoje, não! Hoje e nunca!”.
Segui o caminho que, obstaculizado por centenas de pessoas, parecia ainda mais extenso. Já estava no Palácio Avenida quando acendi um cigarro, olhei pro prédio e debochei: “Todo ano igual! As crianças, as músicas e a marca do banco explodindo em neon na fachada!”. Continuei caminhando em direção à Galeria Asa. Coração a 12 por 8, uns 85 batimentos por minuto, pressão e ritmo cardíaco burocráticos, de um cidadão comum que tem uma vida burocrática e que talvez por isso veja os dias tão iguais, sejam eles fastos ou nefastos, de cinzas ou de Natais. As sacolas de compras não me comoveriam, tampouco as crianças mal-educadas a exigir pelas ruas os presentes que não merecem. As luzes e as vitrinas, elas não me comoveriam, assim como não me comoveriam as ofertas que diziam que eu poderia ter pela metade do preço algo que em verdade eu jamais precisei ou precisaria.
Não haveria em mim o Natal de 2015, pois meu coração estava definitivamente despreparado para as festas que requerem de nós um mínimo de entusiasmo. E de olhos baixos cheguei à rua Saldanha Marinho, na qual passei alguns dos Natais mais memoráveis e felizes da minha infância, não só pela fartura de presentes, brincadeiras e iguarias, mas pela presença calorosa das pessoas que eu achava iam durar para sempre. Muitos partiram, tantos ficaram, e as lembranças daqueles Natais me trouxeram num instante uma alegria tão grande, que eu sorri no meio de uma calçada da Saldanha Marinho feito um idiota ou uma criança, não sei. Sorri a ponto de um cara que catava papel reparar: “Tá feliz hein, doutor! Deve ser o espírito do Natal!”. E disse isso pra depois me pedir: “Tem umas moedas aí?”. Abri a carteira, deixei cair todas as moedas nas mãos em concha do pedinte.
Depois acendi um cigarro, estendi um cigarro pro inesperado interlocutor e filosofei: “A felicidade, meu camarada, mora em algum lugar dentro da gente. O problema é que ela não aparece quando a gente procura, mas surge quando a gente desiste de procurá-la. E nisso é que está o grande milagre!”.
Horas depois eu me dei conta que o que eu chamara de felicidade ao falar com o reciclador de papéis era – na verdade – Deus! E no meio da noite abri um sorriso. Deus viera me procurar. Haveria em mim mais um Natal.








