InspiradosOpiniões

[Colo]

O céu não guarda segredo
Escuta o que não digo
Espelho de meus olhos
Molha a terra
Meu corpo agridoce
Atlas humano
Nos ombros o próprio mundo
O de mais ninguém
Sobrecarregado
Pelo peso das palavras
Pelo mini mini lamento
Das crianças grandes
Que divididiram o mesmo quintal
Eu escuto de longe
Venham até mim
Sinto
A queda de costas
Sem joelhos para sustentação
Sem chão para amparar
Tragados
Cigarro da vida
(num átimo – atravessamento)
Meu progenitor…
Onde está a tua mão?
Tua voz que antecede meus ouvidos?
Sangue do meu sangue
ou
Nome do meu nome
Jamais figuraram essa história
Como atrevo colocá-los nesta cena?
Canalhas
Não cabem em parte alguma
(fim do átimo – ódio do atravessamento)
No braço direito o carinho
Que nina o filho
acolhe a amada
E agora
o braço esquerdo
Cede espaço
Para Ela que foi minha primeira morada
Para Ela que me deu seu corpo e seu sangue
Tomai!
Comei!
Para Ela que verdadeiramente esteve no meio de nós
Que foi fruto e automilagre
Trindade sem-terra
Aquela que tantas vezes concedeu o conforto do colo
Por injustiça do destino
Por incompetência divina
Por desatino dos dias
Agora
Precisa de um colo também
Descansa
Porque neste momento
Te gestarei no peito
É minha vez de ser a tua mãe

[nota de rodapé] Fiz esse texto para minha mãe, no momento em que ela iniciou um tratamento contra o câncer. Hoje, ela está curada!

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