Inspirados

Uma dose

Arregalei os olhos e nada mudou. Tirei os óculos, usei a camiseta para limpá-los e a situação permaneceu a mesma. Então cocei com toda minha força até quase descolar as retinas. Não surtiu nenhum efeito. Não acredito que aqui venda livros.

Naquela roda de amigos, discutem qual marca é a melhor. O da beirada estava em dúvida se pegava José Saramago ou Alberto Caeiro. O que estava de pé dizia que particularmente gostava de tomar doses envelhecidas de Drummond, Pessoa e Graciliano. A garota enfatizou que era amarradona em Cecília Meireles.

Na propaganda da TV o comunicado dizia que a leitura era autorizada para menores de dezoito anos. Acabei sentando-me e enchi a cara. Após horas sai bem alegre. Em cada semáforo encontro um intelectual sofrendo de sabedoria aguda e pedindo uma moeda para tomar uma dose de poesia. Pobre viciado. Sim, em cada esquina havia bares literários. Coisa de outro mundo. De repente acordo no chão. Caio da cama e descubro que era mesmo sonho.

Dione Castro

É administrador de empresa, estudante de gestão empresarial pela Fatec, graduado em direito e um eterno curioso.

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