Inspirados

Tempos

“Os tempos mudaram”, querendo dizer que algo vivemos, e hoje não mais. Algo tivemos, e não temos mais.

O que mudou?

– fomos mudados.

O que é bom, já que tudo muda mesmo. Nossos cabelos, pele, articulações, tamanho e safadeza.  Tudo muda, tudo passa, como as nuvens no céu. 

Se aprendemos com a mudança, é que é.  Ou não é. 

Não é culpa do tempo, mas de quem o usa.  Se aprendemos, o tempo se transforma em experiência, memória, em extrato vivo encarnado – sangue, sentimento, espiritualidade. O tempo consiste – materializado em rugas, substância, singularidade, história.  

Mas se digo “os tempos” – que mudam lá fora –  o tempo volatiliza, e desaparece. O tempo marca, sim, indiferente à inconsciência da sua passagem, tatuado no corpo. Materializado em cicatrizes.

E na alma? se nada apreendi, se nada se transformou na sua passagem, como o tempo tatua a alma?

 Ando desconfiando que amarga o rastro de um “nada”,  como uma roupa esquecida no armário que, cheia de traças e mofo, se decompõe.  

Agarre o tempo: aprenda, a alma eternizará.  

Maria Luiza Salomão

Maria Luiza Salomão é psicanalista pela Sociedade de Psicanálise de São Paulo e mediadora de leituras, participante do projeto Rodalivro, membro da Academia Francana de Letras. Correspondente da Afesmil (Academia Feminina Sul-mineira de Letras).

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