Quem é vivo não desaparece!

Um homem sentado junto ao balcão, tomando um cafezinho, quando chega a morte e avisa que aquele seria o último dia do homem. O mote não é novo, a novidade é que aconteceu comigo.
A indesejada chegou – vestida de preto e com a foice na mão – mas ofereceu, em simpatia pouco confiável: “Você pode fazer algo que nunca fez ou corrigir algo que mereça conserto. Depois de 24h eu te levo!”.
Tomei o último gole de café, acendi um cigarro e ofereci outro pra ela, que recusou. “Cigarro mata!”. Eu ri da resposta dela, ri na cara da morte. Ela sorriu. De perto, não é tão feia.
Não tendo nada de novo a fazer, tampouco a consertar, eu disse que a partida podia ser abreviada. De repente, conhecer o outro lado e rever tanta gente que partiu me parecia uma boa.
Ela recusou: “Ordens são ordens!” e disse que nada feito, que o prazo tinha de ser obedecido. Eu propus: “Então por que não você fazer algo que nunca fez? Você sempre vem levar a gente, mas você podia ficar comigo por 24h, poupar-me da viagem e voltar contando pra turma alguma novidade!”. Ela aceitou.
Aí saí com ela por Curitiba. Passamos pelas ruas e parques; pelas avenidas e bairros; pelos palácios e casebres. Ela andava por tudo com olhos vivos. Falei que ela ter olhos vivos era um paradoxo. Ela não sabia o que era paradoxo, tentei explicar: “É a gente estar passeando feliz da vida, mesmo sabendo que a morte nos acompanha!”.
Ela achou aquilo tão bonito que tirou da roupa preta uma caderneta e escreveu a frase com seus dedos longos de caveira, segurando a Bic azul com certa dificuldade. Aí quis saber o meu nome. Eu disse: “Machado de Assis!”.
E foi assim que eu enganei a morte, que agora anda à procura do Machado de Assis sem saber que ele é imortal!
E nunca mais eu fui tomar café naquele endereço, pois gosto muito desta vida! Se for pra morrer, que seja por uma mulher muito formosa, cheia de curvas, e não capturado por uma indesejada cujo corpo é feito inteirinho de osso!







