Inspirados

O texto a seguir não é para salvar ninguém. Também não me salvou, mas é um grito no mundo!

Como há muito tempo não fazia sentei-me aqui no ambiente reservado para produção de textos, tempos atrás chamaríamos de gabinete, escrever me leva a querer acessar dois lugares nos meu leitores: o primeiro é que a mensagem atravesse como é oportuno, a segunda é descrever como me sinto, como o ambiente está disposto. assim, decido começar pelo final. no quarto tem uma luz azul sobre a mesa, alguns livros que contam estratégias de relacionamentos que fujam do campo monogâmico. existe também graciliano ramos, com angústia e campo geral de joão guimarães rosa. me visto apenas com um shorts laranja fluorescente. os dedos pintados de cor preta, deslizam pelo teclado como se fosse um piano de cauda e acertasse com precisão cada uma das notas para compor a mais bela partitura dos tempos de agora. meus olhos alcançam e se concentram na tela, depois, se perdem junto do barulho externo. interferência nas ideias, reflexões, pensamentos e tentativas. agora, após o impacto dos sons, rabisco na linha o alívio e me transporto para outro lugar. imaginário. as janelas se abrem bem na minha frente. revejo histórias de quase dez anos atrás e me percebo respirando depois de todas elas. sobrevivi! não sei precisamente quando tudo aconteceu e nem todos os detalhes, apenas consigo rememorar cada grito esperançoso e de raiva sentida que me levou para um momento de respiro. estou aqui sem anestesias, a ferida também não está aberta. lentamente respiro novamente e percebo o quanto é gostosa a sensação de esticar os braços bem abertos com o vento acariciando o rosto e não mais um sentimento estranho quando alguém diz sobre a estranheza até pelo seu jeito genuíno de andar-falar-estar.

Quando as escolhas mudam muitas outras coisas mudam também. é impossível saber no que vai se transformar a vida com a saída-entrada de alguém. confesso, sinto saudades de todas as coisas que inventei-quase-vivi e escrever é uma forma, além de me despir, esgotar esse sentimento bonito-estranho que involuntariamente vou guardando de todas as situações que acabam resultando na saudade já dita. pode ser que hoje a literatura não chegue, a poesia não alcance. seja só o desabafo de um sujeito querendo apresentar para os leitores e leitoras um pouco da sua experiência frustrante com sujeitos “polêmicos”.

Aconselharia meus filhos, caso os tivessem, assim como aconselho você. permita-se viver todas as experiências de forma inteira, mas não é preciso chegar até as últimas consequências, como carregar o corpo do outro e sacrificar parte da sua vida. não é necessário, o texto que vos fala pode ser um caminho para flexionar possibilidades. então, espero que em todas as ações executadas exista movimento para que seja justo. nós necessitamos sentir amor de volta, respeito de volta, desejo de volta para que não haja esgotamento. eu, no esgotamento físico e mental de toda essa situação que, ora vai ora vem, retirei-me sem desejos, haviam apenas silêncios que ecoavam, porém, depois de tudo sinto alívio por não precisar me assujeitar e ver que não é necessário ser refém. foram muitos anos para chegar aqui e dizer. encorajar-me percebendo que o poder da escrita alcança muitos lugares, ou seja, é uma forma de disseminar aprendizado no mundo! aqui está o meu: o alívio, esse deus da qualidade do tempo que pode ser mais valioso que um amor piegas e fingido. amor testado apenas nos limites da necessidade, mas não compartilhado na leveza. 

Dessa vez, não fiz nada além de agir com a reação imediata de tudo que me causou e me causaste exaustão, todavia, que bom foi após essa saga me deitar embaixo dessa árvore imaginária, descansar e depois re-configurar uma nova versão para mim de mim e dos meus sonhos e meus desejos e todas as aditivas possíveis que posso somar nessa conta de mais que é experimentar viver o amor na sua plenitude. 

Não me culpo e, querido, não lhe culpo. seria simples. a vida pode ser mais generosa para nós dois em sua dinâmica de escolhas que vamos fazendo no agora e vão reverberando  representando-nos no futuro. continuo desbravando minhas próprias narrativas num movimento de descortinar o destino para descobrir qual o próximo ato desse espetáculo formidável que produzo com o decorrer do tempo. para encerrar, deixo afirmado que a sensação sentida é de alívio e, caso seja útil para alguém que passar por aqui, não se intimide com tais colocações, nem acredite que isso é autoajuda. o texto é um impulso para que você consiga, de uma vez por todas, abandonar esse peso que está sobrecarregando sua caminhada e truncando sua possibilidade de sentir-se. desejo à você. alívio.  

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