
Tem pai que é um gato. Outro, um rato. Outros, ainda não se identificaram consigo mesmos.
Diz o velho ditado que quem não dança segura a criança.
Direto pro vídeo da vez.
O dia era especial. A filhinha tinha a sua apresentação com as coleguinhas de balé.
Mamãe e papai capricharam em tudo, no collant, meia-calça, sainha, do cabelinho em coque, no levíssimo par de sapatilhas e na maquiagem.
Senhores e senhores, ao primeiro atoooo!
Foi aí que a roda pegou. O friso entortou para fora.
Todas as bailarinas entraram em cena. Menos a baixinha daquele papi babão. Ela abriu o berreiro, no modo clássico de sua dança preferida, chorando pelos olhinhos e boquinha louca para gritar de insegurança.
Seguia o número tantas vezes ensaiado.
O inesperado veio.
Fora do combinado e do roteiro, um intruso é recebido com gritinhos e sonoras palmas: o papai amoroso conjugava o verbo amar como se fosse um substantivo, de carne e osso e de muita emoção.
Nada poderia atrapalhar passo algum. O palco estava lindamente preparado. Iluminadores atentos a cada parte do ato. Pliés, tendus, piruetas.
E a mãe da pequena bailarina, onde estava? Estava onde sempre esteve: no coração da filha, ligadas pelo cordão da conexão que nunca se corta e arrebenta no parto e na partida.
Que bicho você é, papai?
Voltei, voltei ao introito, com vontade apaixonante de assistir à próxima atração, com direito a um jeté, em que a nossa pitita, atirando as pernas com tanta força e energia, esquece que existe o chão, o assoalho do palco do teatro. Suspensa no ar, chorará sozinha, feliz, pela lembrança do que é ter um paizinho que Deus lhe deu, em um pacote de sensibilidade e de carinho, arrojado, a lançar a pedra fundamental da construção da transição respeitosa de uma nova e possível paternidade, saltando sobre a subjetividade, a masculinidade meramente fisiológica e as falhas de criação de cada geração, se é que estas tais existiram, porque alguém tentou fazer o seu melhor. Acreditemos.
Cabem mais pessoas na cena:
Venha não perca o seu tempo
Que até a idade se pode escolher
Venha ser uma criança
Girar nessa dança, ser o que quiser
Embarque nesse carrossel
Onde o mundo faz de conta
A terra é quase o céu … Imagens a crédito de @rotaadm







