As histórias escritas por Deus

São bonitas as histórias que os homens inventam. Nelas parece que nenhuma palavra sobra e nenhuma palavra falta. Precisão de encher os olhos. Quem lê Guimarães Rosa alcança outra dimensão. Quem lê Érico Veríssimo também se transforma.
São bonitas as histórias que os homens inventam, mas as histórias escritas por Deus – e nem sempre traduzidas em palavras – estas, sim, nos elevam a outra dimensão, nos transformam, dão sentido à nossa vida e nos fazem mais humanos.
E as histórias escritas por Deus são tão lindas que faltam palavras pra gente contar. E elas causam na gente uma sensação tão boa de paz que parece que o simples fato de tê-las testemunhado já nos é alegria suficiente. Mas chega um dia que a gente resolve contá-las pra todo mundo pra mostrar que a vida é um presente dEle para nós. E, mais do que um presente dEle, a vida é a presença dEle em nós. A vida é o grande milagre, é um dom, é a maior prova de amor que Ele poderia nos dar.
As histórias escritas por Deus são tão lindas que faltam palavras pra gente contar, mas chega um dia que a gente resolve contar.
Em 2009 os funcionários da Secretaria Estadual da Saúde tinham de ir até a calçada para fumar. Eu, na condição horrenda de fumante, era frequentemente visto nas rodas que se formavam nas calçadas da Rua Piquiri.
Cigarrinho é vício gregário e logo os fumantes se tornavam velhos amigos. Entre velhos amigos não pode faltar uma boa conversa.
Certo dia, foi se chegando perto de nós um sujeito tímido. Acendeu o cigarrinho e ficou a distância. Sorria meio sem jeito. Um sujeito forte e que aparentava ter a nossa idade. Trabalhava instalando e fazendo a manutenção da rede elétrica e da rede de informática da Secretaria. Acho que fui eu quem tomou a iniciativa:
– Chega aí, guri! Junte-se aos bons e serás um deles!
O cara riu meio envergonhado, mas chegou. Chegou, e permaneceu calado. Só ouvia e sorria. E assim se passou a primeira semana. Na segunda semana, o cara já tinha dito o nome (Senival), a cidade onde nascera (Cantagalo-PR), o ano do nascimento (1977) e o time do coração (Atlético Paranaense). Na terceira semana, já almoçava com a gente e já contava piada. De vez em quando ficava triste, pensativo, distante.
Aí teve uma tarde em que eu é que estava distante e pensativo, fumando meu cigarrinho. O Senival chegou:
– Qual é, Rafa? Tá triste? Brigou com a namorada de novo?
Pra falar a verdade, nem me lembro afinal o que é que tinha me deixado triste. Mas o fato é que a história que veio depois, com o relato do Senival, foi tão bonita que tristeza nenhuma poderia permanecer em mim.
Ele me viu chateado e puxou o papo “Qual é, Rafa? Tá triste?”. Eu, sem vontade de falar sobre mim, disfarcei:
– Tô com muita conta pra pagar. Só isso! Mas, Senival, me explica como é que alguém que nasceu em 1977, em Cantagalo-PR, acaba parando em Curitiba e vira torcedor do Atlético Paranaense. Você me disse esses dias que começou a torcer pelo Atlético em 1993! Bicho, em 1993 o nosso Atlético tava horrível! Quem era o maluco que ia virar atleticano em 1993? Só você, cara! Me explica, pois eu não consigo entender!
E ele explicou.
– Rafa, nasci em Cantagalo, em 1977. A gente morava num sítio. Meu pai, minha mãe e mais onze filhos. Eu era o oitavo. Fome a gente não chegou a passar porque a terra dá a comida necessária pro povo não morrer. Mas a terra, que dá comida em troca de cada gota de suor, não dá mais nada além disso, não. E menino nenhum vira homem só com arroz e feijão. O corpo carece de comida, mas a cabeça carece de estudo. E tem também a alma que carece de tudo isso – estudo, comida e de coisa ainda maior que é o sentimento. A alma precisa de sentimento, precisa sair pelo mundo pra conhecer o mundo e depois entender como é que ele funciona. Um dia meu pai me disse que aquela terra agarra o pé do menino que não se esperta. Que a terra transforma o pé do menino em raiz e depois o homem em árvore. E homem não nasceu pra ser árvore. Homem tem pé pra andar pelo mundo e ir atrás de comida pra cabeça, pro coração e pra alma. O pai disse que se eu não quisesse virar árvore eu tinha que andar pelo mundo, que ficar ali era viver fadado à miséria.
Nessa altura do relato, eu já tinha me esquecido dos porquês de minha tristeza. Eu era apenas ouvinte de uma história escrita por Deus. E o amigo Senival continuou:
– Eu tinha dezesseis anos quando meu pai me mandou pra Curitiba. Era pra eu estudar eletricidade com o meu tio. Estudar é o modo de dizer, era pra eu aprender com ele a fazer consertos, instalar chuveiros, mexer com fiação, ter um ofício. Meu tio morava na Vila Oficinas com uma mulher que era uma diaba. Não demorou muito e ele veio com a conversa: “Olha, Senival, o que eu tinha pra te ensinar já ensinei. Por mim você até que ficava mais, mas ela não gosta de dividir o espaço. Ela tem ciúme das coisas dela… você sabe como é mulher, né?”.
O amigo teve de sair da casa do tio da noite pro dia e com a roupa do corpo. Dezesseis anos, recém chegado de Cantagalo. Se ligasse pra casa era capaz de matar o pai de preocupação. Voltar era ainda mais difícil, pois tinha moedas no bolso.
Andou por Curitiba dois dias e duas noites. Dormiu na Praça Tiradentes, morrendo de medo dos bêbados que passavam pela praça aos berros e aos murros. Sentiu fome. Ganhou almoço de um chinês em troca de lavar os pratos.
Quando se preparava para passar a terceira noite na Praça Tiradentes, surgiu um casal. Homem e mulher simples, aparentavam ter sessenta e poucos anos. Iam tomar o ônibus pro Abranches. A mulher tocou o braço do marido e apontou o Senival. O marido olhou na direção do menino. Aproximaram-se dele e, num ímpeto paternal, levaram o menino consigo. Senival foi com eles para a casa do Abranches, porque seguir aquele casal lhe parecia mais seguro do que passar mais uma noite na praça.
Na casa simples, após uma noite inteira de perguntas, instalaram Senival no quarto que pertencera ao único filho do casal, morto em 1990, aos dezenove anos, numa briga de bar.
Na casa simples, Senival tomava o café, ganhava do casal uns trocados para a condução e ia procurar emprego no Centro. Conseguia a proeza de voltar sempre com um dinheirinho a mais: às vezes lavava louça no restaurante do chinês, às vezes consertava a rede elétrica das lojas dos turcos na Riachuelo e na Pedro Ivo.
O tempo ia passando e o casal se apegava ao menino, assim como o menino se apegava ao casal. “O Senival tem nos dado alegrias que o nosso menino nunca pôde nos dar!” – sentenciava a mulher no que era acompanhada pelo marido.
Numa tarde de sábado de 1993, o homem sentado no sofá. Na tevê, Atlético Paranaense 5 x 1 América Mineiro. O homem era Atleticano. O Senival até aquela tarde não torcia pra time nenhum. O primeiro gol do Atlético foi efusivamente comemorado pelo homem num grito que ecoou pela casa: “GOOOOOL DO ATLÉTICOOOO!”.
A mulher censurou: “Bem, olha os vizinhos. Você me mata de vergonha!” – mas a alegria do homem era grande demais. Senival olhava a tevê de longe e achava graça do jeito do homem torcer.
Não demorou muito e ecoou pelo ar o segundo gol do Atlético. No ar também havia o cheiro bom do bolo de milho que a mulher fazia na cozinha. Senival olhava a tevê de longe e a distância que guardava da tevê era a mesma que o separava do fogão, onde a mulher preparava o bolo perfumado e onde um cafezinho era passado no coador de pano.
Na frente da tevê o homem vibrava com o seu Atlético Paranaense. Na cozinha a mulher preparava o bolo e passava o café.
De repente, o grito de gol deu lugar a um terno convite: “Senival, vem cá, meu filho, vem ver jogar o melhor time do Mundo!”.
De repente, os aromas da cozinha se materializaram em forma de bolo e café diante do Senival. Mesa farta. “Come mais bolo, meu filho! Come que saco vazio não para de pé!”.
De repente, um casal – que perdera o único filho em circunstância trágica – ganhava outro filho. E o menino, que deixara cedo a casa dos pais em Cantagalo-PR, ganhava outros pais.
E toda esta história foi contada pelo Senival ao ser questionado por mim acerca dos motivos que o levaram a torcer pelo Clube Atlético Paranaense no distante ano de 1993.
1993, ano em que o Atlético Paranaense esteve ruim das pernas, mas mesmo assim encantou aquele menino pobre de Cantagalo.
Aquele menino que veio a Curitiba para aprender um ofício, e que acabou acolhido por pessoas tão especiais que hoje são chamados por ele de pai e de mãe.
– Rafa, aquele foi o dia mais feliz da minha vida! Basta eu fechar os olhos para rever os cinco gols do Atlético, pra sentir de novo o cheiro do bolo, o gosto do café, a maciez das almofadas daquele sofá e o calor que brotava dos abraços que me davam o pai e a mãe que ganhei aqui em Curitiba.
As histórias escritas por Deus são tão lindas que às vezes faltam palavras pra gente contar.







