Inspirados

(A)Normalidade

Parafraseando Guimarães Rosa – “felicidade é uma questão de prefixo”.  Escutando vozes que falam de um retorno à normalidade, penso nos prefixos, inerentes à linguagem. 

Estamos às voltas, constantemente, com dualidades extremadas, coisa desoladoramente reducionista.

Há fronteiras de múltiplos significados entre palavras usadas na linguagem para que a gente se (des)entenda. Um pé de um lado e de outro, que – sem perceber – pisamos entre um e outro extremo.  Muitas vezes, extremos deslizam, de um para outro, trocam de lugar (filosofia oriental).

Para pensar, e, ainda, sentir com peso e profundidade, é preciso tirar camisetas – arrear bandeiras, deixar de lado brasões e lemas. Abandonar clichês, retirar as travas dos olhos, como diz a Bíblia. 

Não é fácil suspender juízos, preconceitos, evitar autoenganos; olhar para o próprio rabo, antes de apontar o dedo para o rabo alheio.  Mas não vejo como sair desta arapuca reducionista de “ou isto ou aquilo” sem fazer exercício diário de tentar ver o mundo sem ter como referência única o meu próprio umbigo.  É difícil?  Claro que sim: mas tem seus benefícios:

– des-toupeiramos…    

Maria Luiza Salomão

Maria Luiza Salomão é psicanalista pela Sociedade de Psicanálise de São Paulo e mediadora de leituras, participante do projeto Rodalivro, membro da Academia Francana de Letras. Correspondente da Afesmil (Academia Feminina Sul-mineira de Letras).

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