Inspirados

A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer!

Tudo novo. Assustadoramente novo. O colégio imenso e antigo. Escadas, longos corredores e janelões. Nenhum amigo. Eu: aluno novo. A primeira imagem: ela olhando o pátio pela enorme janela. O sol imensamente amarelo iluminando os cabelos loiros da menina. Tudo banhado de ouro diante dos meus olhos.

A menina mais linda que eu jamais vira passaria a ser a menina mais linda do novo mundo que me era apresentado. Musa platônica. Versos escondidos. Frases ensaiadas diante do espelho e que nunca seriam ditas.

O silêncio é o grito abafado pelo medo. Devo ter escrito isso em um poema cuja folha amassei e joguei fora. Folhas que deixavam de anotar as lições de Ciências para abrigar a Juvenília de um guri metido a poeta. Não me arrependo de absolutamente nada.

Os beijos sonhados prepararam os beijos que se tornaram reais na mesma medida em que a musa platônica, adolescente, etérea e diáfana dos cabelos de ouro viria estar de alguma forma nas mulheres cujas carnes mordi e cujas bocas me morderam alguns anos depois.


Há certas horas, no meio da noite, que eu me lembro de Mário Quintana: “A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer!”. Daí fecho os olhos e tento separar o que é mentira e o que é verdade nisso tudo que eu trago no peito. Tento separar o que é sonho e o que é realidade, e não consigo mais. Noite dessas eu sonhei que beijava a menina dos cabelos de sol.

Na manhã seguinte tudo parecia tão real que eu me senti feliz, verdadeiramente feliz. Feliz como num sonho que parece real a ponto de tornar possível enfrentarmos a tristeza de nossa realidade e a angústia de nossa absoluta solidão.

Rafael Fonseca Lemos

49 anos, é Advogado em Curitiba-PR

2 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo