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Vagando pela noite

Por Lívia Stocco

Vagueio tranquila pelas ruas desfrutando do silêncio. Faltam cinco minutos para a meia-noite, e nestes poucos instantes, deixo me levar com o vento que rescende ao aroma dos ipês floridos.

Quando Anhanguera abriu o Caminho de Goiás, que passava por aqui e ia até São Paulo, será que tinha ideia de que eu estava entre a sua comitiva? Penso que não. Na época, eu era apenas uma semente. Uma promessa que acabou encontrando terra fértil e criando raízes nesta terra.

Alguém pensaria que, quando uma cidade começa, nasce uma alma própria dela?

Passo pelo pátio vazio onde a Feira do Rolo acontece todos os fins de semana. Sorrio; negócios e histórias são feitos aqui. Deixo a brisa me levar para outro canto e, em um instante, me vejo em frente ao Poli Esportivo. Penso no Sesi Franca. Meu basquete foi campeão ano passado, sabia?

Sou levada para outro estádio, o Lancha Filho, onde o futebol da minha Francana tem suas batalhas. Meu sopro se estende a outros esportes e também às artes, e me lembro de Regina e de Veríssimo. São tantos ilustres em minha cidade! Mas não paro por muito tempo: faltam quatro para meia-noite, e ainda quero ver mais.

Sou levada para a Estação Ferroviária e me recordo, saudosa, da locomotiva. Estive entre os passageiros tantas vezes! Me apego à promessa de que o prédio estará vivo de novo em breve, porque eu o vi brilhar.

Faltam três para meia-noite. Continuo a vagar. Sou transportada para uma fonte e me deparo com uma placa: “Esta é a Água da Careta. Tão bela como nunca vi. Quem beber desta fonte, nunca mais sairá daqui”. Será que alguém imagina que fui eu a musa que soprei a inspiração para esses dizeres ao ouvido do autor da frase?

Toco na fonte, e logo estou vagando de novo. Dois para meia-noite. Chego à praça central, ao Relógio do Sol. Gasto os últimos minutos pensando nas conquistas do meu povo, em suas manifestações, em suas criações. O prato JK, a festa Hallel, a Exposição agropecuária, a força do setor calçadista, o sabor de nosso café. De olhos fechados, penso nas pessoas. Problemas existem, que cidade não os tem? Mas há beleza. Há virtude.

Abro os olhos. Estou no alto da Igreja Matriz e falta apenas um minuto para que eu me torne uma jovem senhora de duzentos anos.

Um amigo se aproxima feito de vento e estrelas: o Futuro. Em suas mãos, uma caixa com um laço bonito. O relógio badala a meia-noite; ele me entrega o pacote. Abro e sou iluminada pelo conteúdo.

Para mim, a Alma da Cidade, o povo — meu povo — me dedicou sua esperança e a promessa de trabalhar para que eu me torne mais bela, forte e segura. Sorrio, feliz com meu presente.

Lívia Stocco é escritora

Esse texto faz parte da série "O que elas têm a dizer" em que escritoras de Franca homenageiam a cidade pelos 200 anos, comemorados no próximo dia 28 de novembro. Será um texto por dia, até o final do mês, de crônica, conto, ensaio, poesia… escrito por mulheres. Se você também quiser participar, envie seu texto para [email protected] indicando no assunto: texto para homenagear Franca. Ficaremos felizes com todas participações. Soraia Veloso, escritora e francana de coração, é a idealizadora do projeto.

Um Comentário

  1. Lívia Stocco, parabéns pelo lindo texto em homenagem a nossa querida Franca…com ela, pude viajar, sendo vc a minha guia. Percorri todos os lugares mencionados, os quais me trouxeram grande saudade e também, boas lembranças!!!
    Muito lindo!!!

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