Os cruéis dados de planilhas no mercado de trabalho que excluem deficientes visuais
Por Guilherme Kalel
O mercado de trabalho brasileiro se orgulha de exibir dados de inclusão, mas a realidade por trás dos relatórios de recursos humanos esconde uma triagem silenciosa e cruel. Quando olhamos de perto para a empregabilidade, fica claro que as empresas ainda discriminam ativamente as pessoas com deficiência visual em seus processos de contratação. Para este grupo, a busca por uma vaga não é apenas uma disputa profissional; é uma corrida com barreiras invisíveis onde o esforço exigido é brutalmente maior do que o cobrado de pessoas com outras condições de deficiência.
O Brasil possui hoje cerca de 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual. Desse total, aproximadamente 650 mil são deficientes visuais totais. Uma parcela significativa desse público se vê refém de uma política historicamente discriminatória. Embora o país tenha registrado avanços legais e sociais ao longo dos últimos anos, a mentalidade corporativa parou no tempo. O preconceito se fantasia de “falta de acessibilidade” ou “custo de adaptação”, deixando profissionais qualificados trancados do lado de fora do mercado de trabalho.
Para piorar esse cenário, uma mudança legislativa recente agravou o quadro de forma dramática: o reconhecimento da visão monocular como deficiência visual por lei. Embora a intenção legal possa ter sido de amparo, o efeito prático no mercado corporativo foi devastador para quem tem baixa visão severa ou cegueira total.
As pessoas verdadeiramente deficientes visuais perderam muitos postos de trabalho para os monoculares. Para as empresas, o cálculo tornou-se puramente utilitarista: o monocular preenche a cota legal sem exigir quase nenhuma adaptação física ou digital no ambiente de trabalho. Uma pessoa com visão monocular, na maioria das vezes, usufrui dos direitos reservados às pessoas com deficiência sem ter o mesmo nível de restrição severa na vida cotidiana — mantendo, por exemplo, a capacidade e o direito de dirigir seus próprios carros. O resultado é uma distorção grave: a inclusão de um grupo acabou retirando e esvaziando os direitos de quem mais precisa de suporte, seja nas cotas de concursos públicos ou nos processos seletivos do dia a dia no setor privado.
É preciso olhar para essa questão com muito mais atenção e urgência. O poder público e o Judiciário precisam revisar os critérios de enquadramento para corrigir as injustiças desse passado recente, garantindo que os direitos e as cotas protejam quem realmente enfrenta barreiras intransponíveis de acessibilidade.
Mais do que ajustes na lei, o Brasil precisa de uma profunda conscientização social. As pessoas com deficiência visual têm vida, têm competência e precisam de seu espaço garantido. Elas não buscam vagas por pena ou caridade, mas sim por merecimento e capacidade técnica. O mercado de trabalho só será verdadeiramente inclusivo quando parar de buscar o caminho mais fácil para cumprir tabelas e passar a enxergar o valor real da diversidade.
Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor. [email protected]







