O peso invisível de ser pessoa com deficiência visual e diabético: a falta de acessibilidade que o governo escolhe não enxergar
Por Guilherme Kalel: Jornalista e Editor
Conquistei a maioridade convivendo com o diabetes. São 24 anos de uma jornada diária que começou em 2002, quando me tornei insulinodependente. Para quem olha de fora, o diabetes pode parecer uma equação simples de picadas de dedo, contagem de carboidratos e doses de insulina. Mas, quando essa realidade se cruza com a deficiência visual, a equação se torna uma barreira quase intransponível de exclusão. A recente pesquisa que aponta que 70% dos diabéticos brasileiros sofrem um impacto emocional significativo apenas confirma, em números, a angústia que sinto na pele há mais de duas décadas. E posso afirmar, com a propriedade de quem vive esse duplo desafio: para nós, deficientes visuais, o peso psicológico é multiplicado pela negligência e pela falta de acessibilidade.
O gerenciamento do diabetes exige precisão. Uma leitura errada da glicose pode significar um desmaio por hipoglicemia ou uma internação por cetoacidose. No entanto, o mercado e o Estado parecem ignorar que pessoas com deficiência visual também precisam medir seu sangue de forma autônoma. Os glicosímetros convencionais, os famosos aparelhos de ponta de dedo, são completamente mudos. Não existem, no mercado brasileiro, opções acessíveis de aparelhos falantes que nos deem autonomia. Depender de terceiros para saber se o seu nível de açúcar está em 50 ou em 300 não é apenas um risco à saúde, é uma violência diária contra a nossa dignidade e independência.
A tecnologia para resolver isso já existe, e atende pelo nome de sensores de monitoramento contínuo de glicose. Esses dispositivos mudariam completamente a minha vida e a de milhares de outros deficientes visuais, pois nos permitiriam usar os leitores de tela dos nossos próprios celulares para ouvir os resultados da glicemia em tempo real. O problema é que essa solução tecnológica está totalmente fora da nossa realidade financeira. O custo desses sensores é proibitivo para a esmagadora maioria da população. É exatamente aí que a omissão do governo se transforma em crueldade. Apesar de existirem algumas políticas públicas voltadas ao diabetes, o sistema de saúde pública nacional simplesmente não dispõe de nenhuma iniciativa que garanta o fornecimento desses sensores para pessoas com deficiência visual. Estamos jogados à própria sorte.
Se olharmos para o cenário municipal, vemos lampejos de sensatez que apenas escancaram o tamanho da exclusão no resto do país. Cidades como São Paulo e Caraguatatuba, no litoral paulista, possuem programas municipais que fornecem esses sensores modernos. No entanto, essas iniciativas são voltadas exclusivamente para crianças. É indiscutível que o diabetes na infância tende a ser agressivo e que essas crianças precisam e merecem esse suporte tecnológico. Não se trata de retirar o direito delas, mas de questionar: por que nós, deficientes visuais, que enfrentamos uma barreira física e sensorial brutal para gerenciar a mesma doença, somos deixados de fora? A nossa necessidade de tratamento e de sobrevivência não é menor.
Viver com diabetes há 24 anos tendo deficiência visual é enfrentar uma ansiedade constante, um medo que não descansa nem na hora de dormir. Saber que o estresse e as noites mal dormidas desregulam ainda mais os hormônios e a glicose vira um ciclo vicioso alimentado pela própria falta de acessibilidade. O impacto emocional de que a pesquisa fala, para mim, tem cor de negligência governamental. O governo e o Ministério da Saúde precisam entender, de uma vez por todas, que acessibilidade não é privilégio: é o divisor de águas entre a vida e a morte para um diabético que não pode enxergar a tela de um aparelho.







