O gabinete

Aos 25 anos de idade e quintanista de Direito na Universidade Federal do Paraná, ele arranjara estágio como assessor em uma vara cível de Curitiba.
A ansiedade o fizera chegar uma hora mais cedo ao primeiro dia de trabalho, o que permitiu ficasse andando pelo gabinete vazio, à espera do chefe, que ele não fazia ideia de quem fosse.
Com as mãos para trás, olhava através dos vidros das estantes embutidas os volumes que compunham a biblioteca. Livros antigos se misturavam a exemplares recentes.
Havia duas grandes mesas de trabalho frente a frente, separadas por poucos metros. Uma seria ocupada por ele, a outra era mistério.
Foi ver a mesa da chefia: porta-canetas, adesivos, alguns manuais de processo civil, um porta-retrato no qual uma moça loira sorria tendo Paris como cenário e um vaso que acolhia flores brancas, que ele não sabia dizer o nome, pois nada entendia de flores.
Concluiu que sua nova chefe seria a moça loira da foto em Paris e que era muito bonita, ao menos no retrato.
Andou mais um pouco pelo gabinete até que se sentou à espera da chefe, que também resolvera antecipar a chegada ao expediente naquela manhã: era mesmo a moça loira bonita, ainda mais bonita ao vivo do que no retrato.
Apresentaram-se. Ela muito simpática e falante; ele contido e tímido. Ela trajando roupa esvoaçante e colorida; ele metido em paletó preto de lã.
Acomodou-se à mesa de trabalho, ligou o computador e esperou alguma ordem da chefe, que falava sorridente ao celular, enquanto abria persianas e janelas.
Ele observava todos os movimentos da chefe como quem acompanhasse a apresentação de uma bailarina. Não havia naquela mulher gesto sem beleza e graça.
O sol entrava pela sala, iluminava seus cabelos loiros e fazia brilhar os olhos azuis, como os primeiros raios douram as areias da praia e fazem cintilar as águas. Ela era, de fato e de direito, ainda mais bonita do que no retrato.
Não demorou para que a chefe lhe pedisse pesquisa jurisprudencial acerca da responsabilidade civil do agente público por danos causados a terceiros no exercício de atividade pública.
No fim da tarde, ele entregou um texto de 12 laudas sobre o tema, tudo cuidadosamente revisado, pois era um perfeccionista. Ela arregalou os olhos e arqueou as sobrancelhas, enquanto folheava o material, com ares de aprovação. Ele sorriu sem jeito, mas satisfeito. Despediu-se dela, levando na mente a imagem da doutora feliz com a pesquisa. Sorriu no caminho até o elevador.
Assim, a rotina de pesquisas passou a ser a tônica naquele gabinete. Ela apresentava o tema logo cedo e ele entregava o material no final da tarde.
Era também parte da rotina de trabalho o hábito de a doutora ouvir música e cantarolar. Perguntava ao estagiário se a cantoria o estava incomodando. Ele sorria, timidamente, e garantia que não. Daí ela continuava a cantar, com os olhos azuis fixados na tela do computador, enquanto os dedos rápidos no teclado iam escrevendo despachos e prolatando sentenças:
“Beija eu, beija eu, beija eu, me beija…”
Ele observava a chefe imerso nas águas profundas do seu mais novo amor platônico, pois sempre fora dado a amores impossíveis, como convém aos tímidos, aos românticos e aos medrosos.
Quando a doutora saía para o almoço, ele ia até a mesa dela e espalhava as canetas sobre o tampo de vidro. Depois, recolhia, uma a uma, e as colocava no pote, porém antes cheirava todas elas, só para sentir o perfume que a chefe deixava em cada caneta.
Fazia o mesmo com os livros que a doutora utilizava, cheirando as capas e suspirando. Depois tomava o cuidado de devolver os exemplares ao lugar de origem, para que não levantasse suspeita.
No fim de certo expediente da manhã, e estando sozinho no gabinete, ele tomou nas mãos o vaso no qual resplandeciam as belas flores brancas, cujo nome lhe era desconhecido. De costas para a porta do gabinete, ele aspirava profundamente o perfume das flores, enquanto cantarolava, cheio de paixão platônica pela doutora:
“Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão
Enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim…
Queixo-me às rosas
Que bobagem as rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai!”
Acontece que nesse dia ela saiu para o almoço, mas esquecera a bolsa, o que a forçou a voltar ao gabinete dois minutos depois de o ter deixado. O flagrante foi inevitável:
- Senhor Fernando, pode me explicar o que está fazendo no meio do gabinete, dançando com o meu vaso de orquídeas brancas nos braços e cantarolando “As rosas não falam”, do Cartola? O senhor por acaso está apaixonado, senhor Fernando?
Pilhado pela chefe juíza em atitude bastante delicada, Fernando, em fração de segundos, considerou que declarar seu amor por ela seria impensável para um tímido mórbido dado apenas a paixões platônicas e que o melhor a fazer seria optar por uma explicação tão absurda quanto o flagrante. Atabalhoadamente, respondeu:
- Doutora Flávia, essas flores são orquídeas? Eu jurava que eram rosas! Por isso as tomei nos braços e cantei “As rosas não falam”, do Cartola! Eu achei que eram rosas! Que eram rosas! Foi tudo um equívoco, Doutora Flávia!!! A senhora me perdoa? Não me tome por abusado!!! Foi um equívoco!!! Um equívoco!!!
No outro dia, a Doutora Flávia cumpriu o expediente sozinha. Com os olhos azuis fixados na tela do computador, enquanto os dedos iam digitando despachos e sentenças, cantou triste:
“No meio de tanta gente, eu encontrei você. Entre tanta gente chata, sem nenhuma graça, você veio. E eu que pensava que não ia me apaixonar, nunca mais na vida…”
Noutro canto da cidade, Fernando assinava as vias da rescisão de seu contrato de estágio. Usou uma esferográfica que pegara do porta-canetas da Doutora Flávia.
Nela ainda havia o perfume da amada.
Hoje, passados tantos anos, é apenas uma esferográfica em um porta-canetas. Mas como dói!






