Não sou vira-lata

As declarações dadas pelo presidente norte americano em sua posse, contra o governo brasileiro: “Eles precisam de nós. Nós não precisamos deles. Todos precisam de nós”, trata-se de uma atitude que infelizmente não me assusta. Inúmeras condutas dos nortes americanos, colocam-se sempre como prioridade diante as questões do resto do mundo. Cabe-nos lembrar das falas: “américa, américa e américa”, no sentido de que a américa é apenas os Estados Unidos, não todos do continente americano. Expressão muito usada pelo presidente dos Estados Unidos em seu mandato anterior.
Ainda, entristecido, lembro-lhes da atitude do último presidente brasileiro – você sabe quem – prestando continência a bandeira dos Estados Unidos em um evento a época. Um defensor do “patriotismo” digno da qualificação vira-lata – com respeito total aos cãezinhos. Mas, aqui gostaria de convidar a uma reflexão que é importante neste momento. Longe de mim, afirmar ser uma posição acabada e certa, pois isso pressupõe superioridade ao outro, questão a qual abomino. Não é com essa finalidade.
O senso de vira-lata de brasileiro diante a outros países, se mostra quando não valorizamos a nossa cultura, as empresas que temos, quando esquecemos de quem somos estando em outros territórios – somos estrangeiros. Cabe lembrar que a América Latina na década de setenta não havia mudado tanto, com inúmeros países ainda governados por ditadores, eu diria quase que os “senhores feudal” da atualidade. A vassalagem que sofre o povo latino-americano não havia mudado tanto desde que aqui chegaram os espanhóis e posteriormente os portugueses. Todo este contexto, dificulta a construção da ideia de futuro para o povo da América do Sul. Questão, não muito diferente aos demais países do mundo que estão abaixo da linha do equador. No passado, os chamados países do terceiro mundo, ou países emergentes.
Falar de futuro para as pessoas dos países que estão acima da linha do equador, como os europeus a França, Inglaterra, Portugal, Espanha, países nórticos, até mesmo o Estados Unidos dentre outros, no que se refere a cidadania – a exemplo o poder dos povos de autodeterminação um princípio do direito internacional, o distanciamento do mais rico ao mais pobre, questões sobre direitos fundamentais, direito de acesso a moradia, política econômica social de garantia de renda mínima, cotas para acesso a universidades, direitos trabalhistas, soa estranho pela história que tiveram e realidade que vivem. Pois, trata-se de circunstância superada para maioria destes países.
O geógrafo brasileiro Milton Santos, dizia que há uma incompatibilidade com a ideia de futuro para as pessoas que vivem nessa região do norte do planeta, a exemplo os europeus. E que o fundamentalismo das classes dirigentes dos governos, impede a construção e o discernimento da ideia de cidadania para o povo brasileiro, sobretudo, complemento dizendo a construção da consciência de povo latino-americano.
O aspecto da corporeidade, tem sua importância aumentada dado aos efeitos da globalização, no sentido da possibilidade das conexões e relações entre os povos. A corporeidade é a expressão corporal do indivíduo, em que vem à tona a reflexão de que: como se comunica com mundo? em qual contexto está inserido? e por fim, qual seu lugar no mundo? Via de regra, este pensar, esbarra no ponto de vista de como vemos o mundo e qual nossa consciência cidadã no meio que estamos inseridos.
O latino-americano, é tratado como inferior pelos “imperialista” dado não ter descoberto de fato a cidadania. Não ter construído a consciência cidadã que é a ferramenta necessária para enfrentar o senso de menor diante ao outro. O que a América do Sul quer fazer com seu povo? Quer que eles continuem assim? Ou querem que eles participem de maneira igualitária com seus pares latinos e com os demais povos do mundo? É preciso discutir antes a causa para chegar na solução, não o contrário.
Parafraseando a música Paratodos, do saudoso intérprete brasileiro Chico Buarque, digo que: o meu pai é paulista, minha mãe é mineira, minha bisavó paterna portuguesa que chegou na Bahia ainda criança, depois se instalou em nossa região da alto mogiana. Eu sou o resultado de tudo isso. Entre os francanos, um ribeirão-correntense, paulista, filho de mineira, sobretudo, latino-americano. Concordando com Milton Nascimento e Belchior, sou da América do Sul, sem parentes importantes e sou do interior. Mesmo sem dinheiro no banco, tenho meu sangue e consciência de latino.
É preciso ter consciência de mundo, e saber que a história não mais pode ser escrita sem a nossa rubrica em qualquer nível. Atualmente, todos precisam de todos no mundo. É loucura achar que somos proprietários da terra, sem antes entender que somos parte do todo. Aqui nascemos, crescemos, evoluímos e morremos. Somos parte de um ciclo.
Dione Castro
29.01.2025








Sábias palavras Dione. Parece que as pessoas não refletem sobre nossa origem e o propósito da existência. Quando olhamos para história deparamos com crescente evolução tecnológica, no entanto, o indivíduo vive cada vez mais na singularidade. Abraços e parabéns!