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Dias de azar danado

Em Passos, o piadista Gibraltar era só chamado pelo nome mesmo; mais um nascido na cidade mineira. Já quando mudou pra Franca, logo veio o apelido de Passense e foi isso. Achar ruim pra quê? Jeito era fazer piada e não coçar a cabeça por pouco piolho.

Não é que tudo fosse engraçado para ele. Às vezes tinham momentos em que a seriedade tomava conta, um quase outro Passense. E vinha rosto fechado, peito estufado e a voz imponente; principalmente no trabalho em cargo de liderança.

— Vai se fazer de leitão pra poder mamar deitado? — trovejava quando via alguém de corpo mole.

Outra característica que o marcava era a simplicidade em apreciar a vida. Uma paçoquinha, um pôr-do-sol, aquele torresminho estralando! E também coisas fora da rotina, como quando pulou de paraquedas.

— ‘Cês não fazem ideia — era sua frase para salientar qualquer experiência que lhe agradava em demasia.

Junto com sua parceira Vulpes, uma cordial moça-raposa, viviam no Aeroporto 3, próximo à escola Antônio Manuel de Paula. Vida boa, tranquila e uma agradável toca era tudo o que precisavam, como dizia Vulpes a respeito da própria casa.

Sabe-se lá o que houve, se foi alguma bruxaria, ou quebra de espelho, se passou por baixo de escada… Ninguém conseguia explicar, mas era fato que Passense, de uns dias depois do equinócio de outono, não parava de ter azar.

Começou quando comprou um mini cavalo (não pônei!), com atestado, veracidade e tudo envolvido com os antecedentes do animal. Deu nem mês e o cavalinho, que antes não chegava no joelho de Passense, já alcançava o meio de sua coxa. Logo estava na altura de seu ombro! Pediu reembolso e devolveu. Onde manteria um trem grande daquele?

Noutra feita, vindo de um serviço em Ibiraci, bateu o carro no guard-rail da rodovia. O bolso foi o que mais sentiu, sobremaneira que, na mesma semana, sua motocicleta passou por um perrengue de manter na oficina mecânica.

Açúcar no arroz, sal no brigadeiro, vidro de perfume quebrado.

— Égua! Agora já deu! Tá bom! — reclamava Passense muito irritado.

E não estava nadinha bom.

No restaurante em que trabalhava de forma razoavelmente fixa, tornara-se responsável por acender a churrasqueira. Coitado, quando a maré de azar persiste, não tem muito o que fazer. Em um descuido de etanol mais isqueiro e todo seu braço ardeu em chamas.

Corre, apaga, acode! Alguns funcionários do local o ajudaram e logo a ambulância chegou. O veículo furou o pneu mal rodando dois metros pra frente do restaurante.

Troca o pneu ou chama outra ambulância? As duas coisas! O que vier primeiro, tá de bom tamanho!

Conseguiram o levar para o hospital, seguido de todos os meses de recuperação, alimentação controlada e muito medicamento. Nesse interim, o azar tirou férias e partiu.

O braço de Passense ficou com uma grande cicatriz. Tudo bem, acontece. Estava vivo! E o membro ganhara a estranha habilidade de se aquecer tanto quanto ferro incandescente quando o rapaz assim o queria.

— Ó, saí no lucro — gracejava Passense. — Nem preciso de álcool para acender a churrasqueira. Vou economizar muito, ‘cês não fazem ideia!

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

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