Liberdade de opinião: o que te define não é o diploma, mas a capacidade que se tem em apurar e o inabalável compromisso com a verdade
Por Guilherme Kalel
A essência do jornalismo nunca esteve aprisionada nos quadros de um diploma universitário, tampouco na chancela burocrática emitida por órgãos estatais ou corporativistas. A verdadeira identidade da profissão reside no faro pela notícia, na técnica rigorosa de apuração dos fatos, na checagem minuciosa de cada detalhe e, acima de tudo, em um compromisso ético inabalável com a verdade. Quando a decisão histórica de 2009 do Supremo Tribunal Federal estabeleceu a não exigência do diploma de ensino superior para o exercício do jornalismo no Brasil, o país não abriu as portas para o amadorismo ou para o caos informativo, mas sim consagrou a liberdade de expressão como um pilar fundamental da democracia.
Trata-se de reconhecer que a capacidade de comunicar, investigar e denunciar não é privilégio exclusivo daqueles que frequentaram as salas de aula de uma faculdade de comunicação. O mercado de trabalho e a própria sociedade brasileira são formados por talentosos profissionais que, movidos pela vocação, construíram carreiras brilhantes na imprensa escrita, falada e digital, fundaram seus próprios veículos de comunicação e demonstraram dia após dia uma conduta moral exemplar. Tais profissionais provaram na prática que a excelência do trabalho não decorre de um canudo, mas da dedicação ininterrupta ao interesse público e à transparência.
Infelizmente, o cenário político e institucional recente expõe uma perigosa retrocessão intelectual e jurídica. Confrontados pelo trabalho vigilante da imprensa, setores do poder público e parcelas da classe política voltam a alimentar o fantasma da regulamentação da mídia e a defesa da volta da obrigatoriedade do diploma. Sob o manto de narrativas pretensiosas que associam equivocadamente a falta de um diploma ao descaso técnico ou à irresponsabilidade jornalística, tenta-se impor uma barreira corporativa que ameaça sufocar vozes dissonantes. Pretende-se criar uma casta restrita de comunicadores autorizados, enfraquecendo a pluralidade informativa e arriscando a sobrevivência de milhares de empregos, veículos regionais e empresas independentes de comunicação espalhadas pelo país.
Revisitar a tese da obrigatoriedade do canudo sob o argumento de disciplinar a atuação jornalística é um retrocesso autoritário e ilusório. O diploma não é garantia contra a distorção dos fatos, assim como sua ausência jamais foi sinônimo de má conduta profissional. A ética, a responsabilidade e o rigor jornalístico são demonstrados no cotidiano, na relação de confiança estabelecida com o leitor e no respeito às normas legais vigentes no país.
Punir ou banir da profissão comunicadores experientes, dedicados e competentes sob o falso pretexto de valorização acadêmica representa um ataque direto à liberdade de imprensa e ao direito do cidadão de ser informado por vozes plurais. O jornalismo de valor não se valida no papel de um certificado, mas no compromisso inegociável com a apuração fidedigna dos acontecimentos. Permitir que retrocessos burocráticos ameacem a trajetória daqueles que exercem a profissão com hombridade é comprometer a própria vitalidade democrática da nossa nação.
*Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor








