Kalelvision: acessibilidade em templos religiosos, muito além do piso tátil
Por Guilherme Kalel
Caros leitores. Na coluna desta semana, gostaria de voltar a abordar a acessibilidade. Creio que este assunto é de grande relevância, inclusive no que diz respeito a mudanças e melhorias estruturais na sociedade.
Só poderemos ter um mundo melhor à medida que apresentarmos os problemas existentes e buscarmos soluções. Não basta apontar erros, nem fingir que eles não existem; é preciso colaborar.
A despeito de cada indivíduo ter sua crença religiosa, a maioria das religiões possui um ponto em comum — e não me refiro ao fato de acreditarem em Deus. Refiro-me à falta de acessibilidade que impera em igrejas e templos religiosos.
Vejam: um erro frequente na sociedade é dizer que um local possui acessibilidade apenas por ter piso tátil. Mas, caros leitores, isso é um equívoco. Uma igreja, um templo, uma repartição pública ou qualquer prédio de grande circulação não se torna acessível apenas por essa instalação. O piso tátil, isoladamente, não é sinônimo de acessibilidade plena.
No caso das igrejas e templos, tema do nosso artigo de hoje, é necessário muito mais do que sinalização de solo para garantir o direito das pessoas com deficiência visual, por exemplo.
Quando um deficiente visual entra em um templo para professar sua fé, mais do que buscar a Deus, ele busca o pertencimento. Ele quer fazer parte daquela comunidade, ser acolhido e compartilhar sua espiritualidade com os demais. Muitas vezes, porém, esse acolhimento não ocorre da forma adequada, o que gera um “caos interno” que a pessoa com deficiência precisa enfrentar sozinha.
As igrejas e templos apresentam falhas estruturais não por má intenção, mas por falta de conscientização. Quando os fiéis cantam um louvor e gesticulam, quando fazem o sinal da proclamação do evangelho, quando se ajoelham para a comunhão, ou mesmo quando alguém precisa ir ao banheiro ou encontrar um assento: todos esses momentos podem se transformar em situações de constrangimento para o deficiente visual.
Como essas pessoas podem participar plenamente se não enxergam os gestos e ninguém os descreve ou ensina como fazer? Como saberão o momento de se ajoelhar se não há uma orientação verbal? Como podem se deslocar com segurança se não existe um preparo dos membros da comunidade para orientar esses fiéis?
É claro que alguns deficientes visuais frequentam as celebrações acompanhados por familiares. Mas nem sempre é assim. Muitos moram sozinhos ou possuem relacionamentos com outras pessoas que também têm deficiência visual, ficando, portanto, sujeitos a esses obstáculos.
Deste modo, muitos se afastam das igrejas e templos não por falta de fé, mas pelo desconforto e pela vergonha que a falta de suporte pode causar.
Avançamos muito em comparação ao passado. Em algumas denominações, já existe um trabalho — ainda inicial — para que as pessoas com deficiência visual sejam incluídas. Materiais adaptados para o meio digital ou áudio e a instalação de piso tátil são alguns exemplos. Entretanto, ainda não são suficientes para garantir a autonomia e a presença digna nesses locais.
Se todos os deficientes visuais possuem direitos e deveres, e desejam expressar sua fé, é fundamental que tenham as condições mínimas para isso. Essa questão, inclusive, expande-se para além dos templos, atingindo prédios públicos e empresas, tema que podemos abordar em uma oportunidade futura.
Como solucionar esses problemas? No que tange às instituições religiosas, a solução passa, primordialmente, pela conscientização. Ouvir a pessoa com deficiência e entender suas reais necessidades para garantir sua autonomia é o melhor começo.
Não podemos mudar tudo no mundo de uma só vez, mas podemos fazer nossa parte na construção de um lugar mais inclusivo. Reflitam sobre isso.
- Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor. Professor de conteúdo digital e consultor de acessibilidade. Autor da Coluna Kalelvision. MTB: 89344 / SP. [email protected]









