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Franca, 200 anos: de passagem a lar

Por Luciana da Rocha M. Soares

Cheguei a Franca há seis anos, sem imaginar tudo o que vivenciaria aqui, em meio a tantas histórias, sonhos e desafios. Minha vinda aconteceu devido à construção do Sesc, pois meu marido veio para trabalhar nesse projeto. A previsão inicial era de quatro anos, com os atrasos causados pela pandemia, o prazo se estendeu. Coincidentemente, o término da obra veio como um grande presente para a cidade em seus 200 anos.

Na ocasião de sua inauguração, testemunhei a força da ancestralidade e da arte negra: as danças que iluminam os palcos, as palavras do poeta Carlos Assunção ecoando as histórias do povo preto e a grandiosidade da exposição de Abdias Nascimento, que carrega através de sua arte, memórias da religiosidade e lutas do povo Negro.

Foi aqui que, em 2020, conheci o grupo de Igualdade Racial do Grupo mulheres do Brasil, participei do Estimuladoras de Talentos, um programa que até hoje é desenvolvido para mulheres e jovens negras e pardas, a partir deste encontro que não só me fortaleceu como pessoa, mas também me apresentou a mulheres inspiradoras, engajadas com a cultura e a construção de uma educação antirracista. Que apoiam e desenvolvem o curso de formação da Lei n° 10.639/03 realizada em parceria com a Unesp.
São essas mesmas mulheres que lutam por uma Franca mais justa, enfrentando os desafios que ainda assolam a população negra, tão frequentemente relegada às periferias, onde faltam direitos básicos.
Sabemos que ainda faltam muitos espaços para as mulheres em todos os ambitos da sociedade, mas como diz Dom Helder Camara “de esperanca em esperanca, esperançar sempre” caminhamos juntas, unidas, seguimos acreditando e agindo, é uma semente plantada.

Durante a pandemia, Franca me revelou outro presente: a pintura. Tornar-me artista foi um renascimento, uma nova forma de expressar minha essência. Nesse mesmo período, vi Isabelly crescer; ela chegou menina e, hoje, termina o seu curso de Administração na Industrial, uma jovem que carrega sonhos e determinação. Foi aqui, também, que retomei os meus próprios sonhos, investindo nos estudos e avançando na realização da minha graduação, algo que por tanto tempo parecia distante.
Tive a oportunidade de estudar na Fatec, uma Instituição de ensino superior de qualidade inquestionável, mas que ainda é tão pouco reconhecida pelos moradores. Sou imensamente grata aos professores que, como verdadeiros condutores do conhecimento, nos desafiaram a crescer, sonhar e transformar nossos futuros. É um privilégio estar em um espaço que valoriza a educação, com ensino gratuito e acessível, formando profissionais prontos para enfrentar o mercado de trabalho e a vida.

Este segundo semestre trouxe uma mistura de dor e acolhimento. Perdi meu pai, José Marques Filho, um homem que será eternamente homenageado através dos ensinamentos e valores que ele me deixou. Mesmo na tristeza, encontrei refúgio e beleza no coral da Unesp, um espaço onde conheci mais pessoas incríveis. Sob a regência do acolhedor maestro Rafael Andrade, cada ensaio é um lembrete de que a música tem o poder de tocar as almas. Cantar no coral é carregar não apenas a minha voz, mas a de todos os outros integrantes, transformando sons em encantamento e emoção.

Franca tem seus contrastes, como qualquer cidade. No entanto, ela tem algo especial, algo que me fez fincar raízes. São os passeios pelas ruas arborizadas, onde os pássaros cantam como se celebrassem a vida. São as goiabeiras, pitangueiras e mangueiras que nos convidam a colher a doçura da terra. Ao fim do dia, o céu pinta o horizonte com cores que só aqui parecem tão vivas, trazendo uma sensação de plenitude que poucos lugares oferecem. É o silêncio que, em vez de afastar, abraça, trazendo paz e reflexão.

Como diz a música de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, regravada pelo Jota Quest, “Além do horizonte existe um lugar, bonito e tranquilo pra gente se amar”, e eu tenho a sorte de encontrar esse lugar aqui, em Franca.

Cheguei como quem passa, mas Franca me acolheu como quem fica. Hoje, ao celebrar seus 200 anos, sinto gratidão por fazer parte dessa história, que se entrelaça com a minha. Esta cidade é feita de suas pessoas, suas lutas, suas paisagens e, principalmente, de momentos que transformam. Aqui, cada canto, cada luta e cada encontro se tornam parte do que, agora, chamo de casa

Luciana da Rocha M. Soares. Gestora de Rh, mãe e artista.

Esse texto faz parte da série "O que elas têm a dizer", idealizado pela colaboradora Soraia Veloso, em que escritoras de Franca homenageiam a cidade pelos 200 anos, comemorados no próximo dia 28 de novembro. Publicamos um texto por dia ao longo de mais de 40 dias, escritos por mulheres.

2 Comentários

  1. Linda história. Tive o prazer de conhecer Luciana e seu esposo. Que sejam, bem vindos a Franca acolhedora das três colinas.
    Um grande e fraterno abraço.

    Dione Castro.

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