Franca, 200 anos: a cidade que me fez ficar

Por Raquel Cesario
Não! Eu não me senti acolhida em Franca quando cheguei aqui.
O ano era 2007, eu tinha 36 anos e cheguei sem conhecer ninguém. O trabalho do marido era em Franca, e por aqui transcorriam nossos afazeres rotineiros, mas fomos morar na vizinha Cristais Paulista por ser mais fácil alugar imóvel sem ter conhecidos, e pela ilusão de que seria mais fácil fazer amigos lá. Mas lá e cá as portas, do trabalho e das pessoas, estavam fechadas para mim. No primeiro ano, sem amigos. No segundo, com um casal de amigos – ele francano puro, ela paulistana – mas ainda sem trabalho. No terceiro ano o trabalho surgiu… em Rondônia. Lá fui eu… Mais dois anos e voltei definitivamente para Franca. Agora sim, com casa recém plantada em território francano, com trabalho e doutoramento em curso, fui fazendo minhas amizades, abrindo as portas. Descobri que o francano é cordial, feliz, mas tradicional e muitas vezes fechado em sua família. Em sua maioria, desconhece o que é ser forasteiro.
A cada novembro, Franca fica mais velha e eu também. Os 36 já se transformaram em 54 e eu sigo aqui. Já me disseram que estou no lugar errado, que eu devia estar numa metrópole, que aqui é interiorano e pequeno demais para mim. Concordei. Mas aqui também tem ares de cidade grande. Aqui tem o 3 Colinas Valley, tem inovação surgindo aqui e ali, tem o Grupo Mulheres do Brasil, que me acolheu e acolhe todos os dias. E, cantando o que eu aprendi nas arquibancadas do Pedrocão: “Eu não vou embora! Eu não vou embooora!” Vou ficando por aqui, cultivando e festejando as amizades que construí, me deliciando com as belezas naturais que Franca presenteia aos meus olhos diariamente, aproveitando os títulos acadêmicos que conquistei na Unifran, os aprendizados incríveis que tive e continuo tendo com meu trabalho como professora-construtora de pessoas para exercerem a Medicina com comprometimento e autocuidado.
Contudo, capixaba com passagem por Belo Horizonte e Ouro Preto na juventude, resta uma pergunta sem resposta: o francano é mesmo um pouco mineiro? Hoje uma breve conversa com amigas do Grupo Mulheres do Brasil me animou a escrever sobre o tema. Lembrando que Franca é também um polo de inovação, treinei o ChatGPT pra me ajudar com isso, já que ainda não me aventurei a escrever ficção. Vem comigo acompanhar esse papo fictício entre três amigas residentes na Franca preparando uma festa para comemorar os 200 anos da cidade.
Personagens da Conversa
- Mariana – Francana de origem, orgulhosa das raízes paulistas e empreendedora nata.
- Beatriz – Nascida em BH, filha de pais mineiros, cresceu em Franca e vê muito da “mineirice” na cidade.
- Karla – Capixaba, com humor ácido e olhar crítico. Se considera uma “forasteira”, mas gosta de Franca.
As três amigas estão sentadas na Padaria Estrela, discutindo os preparativos para a festa dos 200 anos da cidade.
Mariana: Gente, precisamos deixar essa festa com a cara de Franca! E, convenhamos, Franca é uma cidade bem paulista, né? Empreendedora, dinâmica, sempre focada no trabalho!
Beatriz: Ah, Mari! Não sei não… Eu acho que o francano tem muito de mineiro, viu? Pode até ser empreendedor, mas come quieto, é desconfiado, vai observando antes de se abrir. Isso é muito mineirinho, uai!
Karla: Vocês sabem que, quando eu cheguei aqui, me senti totalmente deslocada. Por esse jeitão “fechado” do francano eu não esperava. Esperei 5 anos pra começar a me sentir acolhida.
Mariana: Tá vendo, Bia? Esse negócio de mineiro é exagero! Aqui, a gente gosta de uma conversa direta, de fechar negócio rápido. É o espírito paulista de interior, de progresso e trabalho duro!
Beatriz: Hum… E o tanto que a gente ama uma prosa longa nos botecos e um cafezinho de boas-vindas? Isso aí é tradição mineira pura! Franca é praticamente uma extensão de Minas!
Karla: Agora eu concordo. No começo, me senti uma forasteira total. Mas hoje vejo que, por trás dessa casca dura, tem um povo acolhedor, que sabe reconhecer quem veio para somar.
Mariana: A gente é prático, mas não perde a hospitalidade. Então, bora colocar essa essência na festa! Mostrar Franca como uma cidade que demora para acolher, mas quando acolhe, não solta mais.
Beatriz: Exatamente! Mostrar esse jeitão de Franca: um lugar de trabalho, café e boas prosas.
Karla: A gente pode também criar um espaço com histórias de vida dos francanos, mostrando como a cidade mudou com as pessoas que chegaram de fora.
Beatriz: Adorei isso! Afinal, no Grupo Mulheres do Brasil temos muitas mulheres que vieram de fora e fizeram a diferença por aqui.
Karla: Eu sou prova viva de que a gente pode não se sentir acolhida de cara, mas depois acaba fazendo parte da história.
Mariana: Pronto! A festa vai ter a cara do povo de Franca: trabalhador, desconfiado no começo, mas com um coração enorme. E vai ter churrasco e muita moda de viola.
Beatriz: E pão de queijo, sô, que não pode faltar! (risos). Teremos um espaço com culinária típica: pamonha, virado à paulista, moqueca capixaba… (risos). Um pedacinho de cada influência!
Mariana: Tá decidido, então! A festa dos 200 anos vai mostrar Franca como ela é: uma mistura autêntica de paulistas, mineiros, capixabas e muito mais!
Karla: Quem diria… até eu, a capixaba forasteira, me sinto em casa aqui. Franca é mesmo única!
Beatriz: Porque a gente sabe acolher, né? Isso é coisa de mineiro.
Mariana: Ou de paulista. (risos)
Karla: Definitivamente de Franca. (sorrindo)
E aí, você vai apoiar a festa preparada por Bia, Mari e Karla? Com qual delas você se identifica?
Eu vou ficando por aqui, agradecendo aos francanos de nascença e de moradia pela acolhida e por tudo que vêm proporcionando à minha vida nesses últimos 18 anos e, claro, parabenizando viventes e antepassados que juntaram as mãos para construir esses 200 anos de história. Parabéns Franca!
Raquel Cesario é uma educadora apaixonada pela transformação humana. Capixaba de origem, sua jornada a levou por várias cidades até se estabelecer em Franca, onde atua como professora universitária, mentora acadêmica e filósofa. Sempre em movimento, Raquel agora abraça a terapia holística como uma nova forma de guiar processos de mudança e crescimento pessoal.
Esse texto faz parte da série "O que elas têm a dizer" em que escritoras de Franca homenageiam a cidade pelos 200 anos, comemorados no próximo dia 28 de novembro. Será um texto por dia, até o final do mês, de crônica, conto, ensaio, poesia… escrito por mulheres. Se você também quiser participar, envie seu texto para [email protected] indicando no assunto: texto para homenagear Franca. Ficaremos felizes com todas participações. Soraia Veloso, escritora e francana de coração, é a idealizadora do projeto.








