
Começamos o ano sob o impacto de mais um acidente de helicóptero. Diz-se que os sinistros são inerentes ao meio de transporte. Mas tudo tem um limite e os indivíduos e autoridades – na defesa da integridade física própria e de terceiros – têm o dever de fazer o possível para evitar as intercorrências que ocasionam prejuízos materiais e imensas dores físicas e emocionais. O desaparecimento da aeronave que partiu no dia 31 do Campo de Marte (São Paulo) rumo ao Litoral Norte torna-se preocupante e até assustador à medida em que vão se tornando conhecidos os pormenores da viagem e os antecedentes profissionais do condutor.
O mais indicado seria não ter decolado se o conhecimento das condições climáticas do trajeto que, para a velocidade aérea é pequeno. Dificilmente o tempo fecharia com rapidez a ponto de, inesperadamente, impossibilitar o voo virtual. Mas, se ocorresse, o indicado seria voltar ao ponto de partida ou a qualquer heliponto acessível na região. Mas, segundo os relatos da comunicação do piloto com o dono do heliponto de destino, ocorreu algo que chega a ser espetaculoso. A aeronave pousou emergencialmente na serra e em seguida decolou para tentar concluir o trajeto; por uma questão de segurança e preservação da vida própria e de seus passageiros, o condutor deveria ter permanecido no lugar e buscado alguma forma de remoção terrestre (um Uber ou similar, talvez) e optado por movimentar o avião depois de o tempo melhorar, recuperadas as condições de segurança meteorológica. Voar (possivelmente para a morte) quando já se está em terra firme, é um tresloucado excesso de confiança.
O histórico profissional do condutor – disponível no noticiário da imprensa – diz que ele já pousou com um helicóptero no alto de um prédio onde não havia heliponto e fez outras manobras arriscadas que lhe renderam períodos de suspensão profissional. Data vênia, as penalidades aplicadas, mesmo que tenham sido fixadas dentro dos códigos de navegação aérea, não devem ter sido suficientes porque o que vemos agora é mais um comportamento de risco, que pode ter custado a vida do profissional e de suas passageiras que, no momento em que escrevemos esse material, ainda são considerados desaparecidos.
Temos, no Brasil, uma aviação desenvolvida tanto no setor público, militar e privado. Uma das mais importantes indústrias aeronáuticas do mundo e milhares de pilotos, engenheiros e técnicos aeronáuticos. As normas de voo são rígidas mas, mesmo assim, hora ou outra, há uma esquisitice que leva a acidentes e – o pior – a perda de vidas – e ao sofrimento pessoal. Importantes figuras já perderam a vida nessas condições.
São Paulo possui mais de 2 mil helicópteros em operação. É a capital do mundo com maior frota desses veículos (mais que Nova York, Tóquio, Rio de Janeiro, Londres, Belo Horizonte e Pequim e alguns países como México, Venezuela, Argentina, Colômbia e Chile. As estatísticas de tráfego dizem que um helicóptero pousa a cada 45 segundos num dos 260 helipontos de São Paulo. Por ser um transporte de alto custo, complexidade e risco, não deveria estar sujeito a acontecimentos como esse que nos foi dado a conhecer nessa virada de ano.
Torcemos para que a aeronave seja logo encontrada e e seus ocupantes vivos. E, também, para que os órgãos encarregados da fiscalização adotem providências para que sinistros dessa ordem não voltem a ocorrer. Inclusive que as autoridades aeronáuticas, o governo e os parlamentares se movimentem para realizar estudos e atualizaçções da legislação de segurança de vôo e, com isso, evitem que operadores ousados continuem se matando e tirando a vida de seus passageiros. Considere que o perfil de transporte está mudando e logo teremos até os taxis “voadores”. A segurança aérea não deve ficar restrita aos aviões convencionais, mas contemplar esses veículos que em alguns anos estarão cruzando os céus braileiros. Segurança é fundamental à população e exigi-la é tarefa de Estado.
Quem adquire um helicóptero ou qualquer outra aeronave tem recursos financeiros suficientes para equipá-la com itens de segurança de voo. Portanto, elas não devem ser licenciadas para voar sem esses requisitos. Para evitar a pane seca (falta de combustível), toda aeronave que pousa num aeródromo que possua bomba de combustível, tem de ser obrigada a completar o tanque e, finalmente, o grande responsável pela segurança do voo tem de ser o servidor da torre de controle que tem como dever verificar se todos os itens de segurança estão cumpridos e as condições meteorológicas para, só depois de feita essa checagem, autorizar (ou não) a decolagem. Se autorizar indevidamente, tem de ser responsabilizado profissional, cível e criminalmente. Essas providências tornarão o nosso tráfego aéreo (independente do tipo de aeronave), o mais seguro do Mundo…







