Colunas

O domador

Antes de Deninão ser caminhoneiro, sonho de infância, ele tentara de tudo um pouco e quase muito um tanto. Não tinha tempestade que o segurasse na cama nem onça na sombra bebendo água. Com Deninão era oito ou oitenta!

— Pra quem sabe ler, um pingo é letra — dizia, todo sorridente.

Sua família descera de Salinas e arredores da Mata Atlântica, passando por cerrados até perto da divisa de Minas com São Paulo, na cidade de São Sebastião do Paraíso; ou só Paraíso mesmo, pra não ficar repetindo nome tão grande. Deninão nascera ali, contudo logo veio nova mudança com mãe, pai e irmãos para os arredores de Franca, na simpática Patrocínio Paulista.

Romance para o homem de muito riso! Ah, aquelas ruas de Patrocínio que, para quem nunca foi, têm umas ladeiras de deixar sujeito roxo. Subidinha braba! Bem numa dessas ruas, ele viu e foi visto pela Mangotinha.

Badalar de sinos, trilha sonora de casamento!

Claro que estamos resumindo a valsa em uma ou duas voltas. O importante é que foram viver em uma fazenda perto de Ribeirão Preto e, numa daquelas noites que pedem muito agasalho, houve casório.

Por essa época, Deninão trabalhava dirigindo uma velha Kombi, fazendo entregas e levando gente pela fazenda. E o danado levantava uma poeira vermelha, vilão de varais com seus lençóis branquinhos, correndo pela estrada de terra.

E então veio o sonho de menino. Em certa oportunidade surgida, trocou lama e cascalho pelo chão preto do asfalto. Enfim, era caminhoneiro.

Na primeira vez que pegou a Anhanguera, comandando aquele bicho de aço, seu coração martelou o peito querendo cair fora. Mas o cérebro, sensato, segurou o rojão: foco, e lá ia Deninão fretando para a colossal São Paulo. Caminhão tinindo com seus cavalos de potência, força bruta pelas rodovias.

Questão de poucos meses e muito se falava de como Deninão fazia as entregas rapidamente, em tempo recorde!

— Ele deve correr que nem louco — diziam alguns.

— Aposto que não para nem pra dormir, nem pra beber água! — exclamavam outros.

O caso era algo simples para Deninão, afinal ele apenas corria em linha reta pelas rodovias. Se tinha curvas perigosas, descidas e subidas acentuadas, ninharia para o caminhoneiro.

Ele carregava consigo um pequeno chicote de couro trançado, curtido na cachaça de Salinas e amanhecido no orvalho da estrela d’Alva. Bastava estralar e a rodovia rosnava baixo, se aprumava e endireitava para a passagem das rodas de borracha.

Algumas rodovias eram mais bravias, ariscas e teimosas em obedecer. Todavia, Deninão colocava o chicote pela janela de seu caminhão e não parava de estralar até domar aquela teimosa estrada, cheia de cismas, mas esticadinha como onça na sombra bebendo água.

Deninão, satisfeito, dava um de seus sorrisos, confiante de que logo estaria nos braços de sua Mangotinha.

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

Um Comentário

  1. Nessa longa estrada da vida vou correndo e não posso parar… Resume muito esse conto de hoje. Quem conhece, sabe a saudades que um domador de estradas deixa para trás em caminhos longos. Apenas aplausos

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