Doutor, eu não me engano”…

No ano em que dava meus primeiros passos na universidade — lá se vão quase 20 anos — fui testemunha de uma cena que até hoje me rende boas risadas pelos seus contornos pitorescos. Conversava com um professor sobre um trabalho no corredor, quando ele foi abordado por um professor de Direito que fez a seguinte advertência:
— Na frente dos meus alunos, por favor, me trate de Doutor!
Meu professor, claramente constrangido, se desculpou, mas, com um olhar de desconfiança, perguntou onde o colega havia feito seu doutoramento.
A resposta, que deixou todos em silêncio, foi:
— Nunca fiz, mas sou do Direito, logo, sou doutor!
Com um sorriso de canto de boca, meu professor, que na época era mestre, respondeu:
— Bom, o senhor também me trate como doutor, por favor. Onde quer que eu vá — seja no restaurante, no posto de gasolina ou quando vou comprar algo — todo mundo me chama assim!
Não preciso dizer que todos caímos na risada, com exceção do professor de Direito, que se viu ridicularizado.
No Brasil, na época do Império, mais especificamente, os títulos acadêmicos eram concedidos por universidades ou faculdades portuguesas, que atribuíam o pronome de tratamento “doutor” aos bacharéis. Como as faculdades brasileiras ofereciam apenas cursos de Medicina e Direito, os bacharéis dessas áreas eram automaticamente chamados de “doutor”.
Nos dias de hoje, entretanto, com o surgimento de toda sorte de coaches e picaretas, aproveitando a confusão entre tratamento e título, muitos indivíduos, em geral com fins econômicos ou políticos, têm se utilizado desse tipo de artifício para construir uma falsa autoridade e criar a impressão de que estão falando a “verdade”. Vale lembrar que essa prática ainda não é considerada crime, apesar da falta de caráter de quem a utiliza. No entanto, há uma lei em tramitação no Senado para que essa conduta passe a ser tipificada.
De todo modo, esses picaretas têm se proliferado na política, muito incentivados por “academias” “infantojuvenis” que visam tumultuar o debate e distorcer a realidade. Análises rasas, maldosas e sem o menor comprometimento com a verdade têm sido a principal linha de ação desses grupos, sobretudo ligados à extrema-direita e a uma “nova direita” que, de nova, não tem absolutamente nada — é, como se diz, “um museu de grandes novidades”.
Nas últimas eleições, tanto municipais no Brasil quanto nos Estados Unidos, vimos a preferência do eleitorado pela extrema-direita. As razões e as pautas para tal escolha são diversas, mas, no fundo, têm a mesma base: vivemos uma profunda crise do capitalismo.
Quando nos referimos à crise do capitalismo, não falamos apenas de uma crise econômica, mas de uma crise do modo de viver. Nesse sentido, a forma como vivemos atualmente está produzindo catástrofes climáticas, pandemias, fome, miséria, guerras e genocídios.
Com esse cenário de insegurança e até de cataclismo, é compreensível que as classes populares busquem “soluções” fáceis para problemas complexos, e é aí que reside o perigo do tempo em que vivemos. No início do século XX, o mundo experimentou uma profunda crise do modo de vida liberal, que levou a duas guerras mundiais e a inúmeras atrocidades promovidas pela extremadireita fascista.
As recentes eleições municipais e a vitória de Trump são demonstrações de que estamos caminhando para um cenário muito perigoso. O crescimento da extrema-direita, com “soluções” fáceis como deportar milhões de imigrantes, isolar pessoas LGBTQIA+ e desregulamentar todas as áreas — incluindo educação, saúde, segurança e meio ambiente — em nome de uma suposta interferência do Estado na vida privada das pessoas e dos interesses do lucro, tem se mostrado uma tática extremamente perigosa. Assim como fizeram Hitler e Mussolini, que defendiam “soluções simples” como isolar e explorar judeus em campos de concentração. Pois é!
O que explica, por exemplo, a vitória de Trump nos Estados Unidos é a promessa de resolver as profundas contradições da sociedade norte-americana.
Trata-se de um país que promete ser uma “nova terra prometida”, mas que entrega uma realidade em que a elite e o Estado utilizam seus cidadãos para produzir os maiores lucros, gerando miséria na mesma intensidade.
Por outro lado, temos uma esquerda com um todo sem estratégia e com crise de concepção de mundo, assim, dessa forma, as classes populares vêm paulatinamente se distanciando. Como muitos sou crítico das pautas identitárias, mas não delas em si, aliás elas são fundamentais para desconstruir e denunciar opressões dentro do capitalismo, contudo, separadas de uma estratégia geral, elas se tornam esvaziadas de sentido político, afastando as classes populares que já veem nessas pautas os elementos cataclísmicos propagandeados pela extrema-direita.
Essa crise estratégica da esquerda tem piorado a conjuntura política. No século XX a única força capaz de impedir o avanço do nazifascismo por exemplo, e garantir o estado de bem-estar social na Europa, um bloco comunista, e as independências na África e na Ásia, foi justamente a esquerda organizada e revolucionária.
O título desse artigo é bem sugestivo para os nossos dias, assim como a marchinha de carnaval sobre a paixão popular por um time de massa, que muitas vezes perde, faz seu torcedor sofrer e desejar trocar de coração. Nesse momento de desilusões generalizadas, as classes populares estão tentando trocar seu coração por “soluções” fáceis, por argumentos de falsos “doutores”, na esperança de parar de sofrer. Mas a verdade é que todos sabemos: as saídas não são fáceis e nunca estão pela direita. Por isso, “Doutor”, eu não me engano.





