Desafio do Parque das Maritacas
Na década de 1960, juntamente com meus amigos da Prudentina, o clubinho que nos unia quando crianças no porão da minha casa na Rua Júlio Cardoso, conheci, explorei e brinquei dentro da maior voçoroca que Franca já teve, conhecida como “Voçoroca das Maritacas”. A gente brincava de cowboy e índio apache dentro dela, pois sua paisagem lembrava os canyons dos filmes sobre o velho oeste norte-americano que assistíamos nas concorridas matinês do Cine São Luiz.
Minha mãe nunca soube desses perigos que passamos, pois o “buracão” era enorme, quase 300 metros de comprimento por 100 de largura, com profundidades que chegavam a 15 metros, cheio de perigosas escaladas, pequenos lagos e lixo. Naqueles anos 60 ainda, estudos do eminente professor da USP Aziz Ab´Saber para o primeiro Plano Diretor da cidade nos governos de Hélio Palermo e Lancha Filho apontaram o caminho: a voçoroca deveria ser recuperada e transformada em parque urbano.

No final dos anos 1970, fotografei a área para registrar a situação, até porque o arquiteto Luiz Antônio Pereira que trabalhava comigo elaborou seu trabalho de conclusão do curso de arquitetura na PUC Campinas exatamente sobre isso, no início dos anos 1980.
Os anos se passaram e no primeiro governo de Sidnei Rocha-Ary (1983-88) a Prefeitura passou a tentar preencher as grandes voçorocas urbanas com entulho e lixo. Voçorocas são ravinamentos provocados pela ação do homem que retira a capa vegetal de terrenos sensíveis de arenito bauru como em Franca e concentram a água de chuva em locais inadequados que acabam erodindo com facilidade.
No caso das Maritacas, por suas gigantescas dimensões, muito lixo doméstico, o que ocasionou no início dos anos 1990, já no segundo governo de Ary Balieiro, uma rebelião dos moradores da região do entorno da voçoroca, já em grande número, que fecharam as ruas para os caminhões de lixo por conta do mau cheiro e riscos à saúde pela proliferação de ratos e outros problemas sanitários.
A partir dali, a Prefeitura passou a utilizar o aterro no terreno apenas com resíduos provenientes da indústria calçadista como restos de couro e plástico. No início do século XXI, finalmente a Prefeitura encerrou as atividades do aterro industrial, deixando um passivo ambiental que a rigor nem era dela e sim da indústria, que nunca foi solucionado e sem qualquer perspectiva resolutiva à vista.
Sabe-se que após o encerramento do aterro foram instalados pela Prefeitura poços de monitoramento e que periodicamente são realizadas análises do solo a pedido da CETESB, que constataram há anos a contaminação do subsolo e das águas subterrâneas da região com metais pesados (como cromo e alumínio), inclusive sob as moradias do entorno e não apenas do terreno do aterro, sem que se saiba se os moradores estão sendo de alguma maneira afetados.
De vez em quando, animais de grande porte são soltos na área e incêndios da vegetação em períodos de seca atrapalham a vida dos moradores próximos com fumaça prejudicial à saúde.
Vinte e cinco anos se passaram desde que os trabalhos do aterro industrial foram definitivamente paralisados e quase sessenta desde que o professor Ab´Saber recomendou a implantação de um parque no local, medida prevista nos dois Planos Diretores da cidade, inclusive no que está em vigor (artigo 33 da Lei Complementar 050/2003).

Desde então passaram-se 16 mandatos e 8 diferentes prefeitos, sem contar uma pandemia de Covid-19 que mostrou a ampla necessidade como medida de saúde pública a existência de grandes espaços abertos à convivência coletiva. Ou seja, tempo mais que suficiente para se ter algum tipo de proposta e solução, qualquer que fosse. Mesmo assim, o parque das Maritacas segue sendo uma distante miragem.
Embora se trate de questão de evidente complexidade, a implantação de um parque no local se revela necessária e urgente nesses tempos de crise climática, não sendo razoável que passados 60 anos e dois planos diretores não se tenha avançado absolutamente nada em relação a um projeto para a área.
A omissão da Prefeitura, da sua Secretaria Municipal de Meio Ambiente e da Câmara Municipal, aliados ao lento silêncio da Promotoria de Meio Ambiente do Ministério Público e da CETESB, evidenciam a procrastinação sem sentido de providências efetivas para solucionar de vez os problemas e dar àquela imensa área pública de 312 mil metros quadrados uma destinação socialmente correta e a serviço da comunidade como determina a Constituição Federal e o próprio Plano Diretor.
Não devemos permitir que as autoridades responsáveis fechem os olhos ao problema.
Há inúmeras experiências com aterros sanitários e industriais no país e no exterior que mostram a viabilidade de transformar áreas com graves problemas ambientais em espaços socialmente úteis.
Uma experiência que acho bastante interessante e visitei é a que foi dada a uma área contaminada da Prefeitura de São Paulo que continha um antigo incinerador de lixo no bairro de Pinheiros, transformado na Praça Victor Civita.
A elaboração do projeto da praça tornou-se uma oportunidade de aprender e refletir sobre processos de construção sustentáveis, economia energética e responsabilidade socioambiental.
Os pisos dos passeios foram levantados numa espécie de deck de madeira de reflorestamento que circula sobre o terreno e interliga as edificações, evitando que as pessoas pisem no solo diretamente e possam ao caminhar aprender sobre a vegetação e pequenos animais que ajudam a recompor o local.
Inúmeras atividades ligadas ao meio ambiente e à cultura acontecem no local, criando instrumentos de educação ambiental para crianças e adolescentes.
Sei que sonho como sempre ante um governo municipal negacionista climático e pouco interessado em meio ambiente, mas seria necessário que a Prefeitura, apoiada por equipe multidisciplinar de universidades que estudam o assunto elaborasse um projeto participativo de recuperação, implantação e uso sustentável do parque das Maritacas, sem o qual será impossível buscar recursos para sua construção em outras esferas de governo e mesmo fundos internacionais que existem e financiam tais soluções.
Inclusive, deveriam ser convidadas a FIESP, a ACIF e o sindicato patronal da indústria calçadista a colaborar no processo, já que a contaminação foi gerada por resíduos da indústria local.
Seria também importante que a Prefeitura aproveitasse a oportunidade para incorporar ao parque a área anexa da antiga e abandonada garagem de ônibus da Cristalense e que certamente também possui um passivo ambiental, fazendo com que a solução de como ocupar o terreno seja definitiva para toda a região e um exemplo de como cuidar do meio ambiente para o futuro de uma cidade melhor, mais humana e adaptada aos extremos climáticos.



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