A velha nova República
Ontem, na correria de uma quinta-feira véspera de feriado, na verdade um improviso de sexta, ouvi dizer que o Barroso, ministro do Supremo, lamentou as explosões em Brasília dizendo que “nós precisamos fazer uma reflexão profunda sobre o que está acontecendo entre nós”. Em seguida, questionou: “onde foi que perdemos a luz da nossa alma afetuosa, alegre e fraterna para a escuridão do ódio, da agressividade e da violência?”.
Confesso que fiquei um pouco intrigado. Será que o ministro nunca estudou nada de história do Brasil? Será que Brasília transformou-se mesmo em uma espécie de “corte” alienada, muito distante do “chão de fábrica” dessas Terras Brasilis?
Como nos lembrava Roberto Campos, “continuamos a ser a colônia, um país não de cidadãos, mas de súditos, passivamente submetidos às ‘autoridades – a grande diferença, no fundo, é que antigamente a ‘autoridade’ era Lisboa. Hoje, é Brasília.”
Apesar de antiga, essa frase já seria suficiente para o ministro refletir os motivos que podem estar levando alguns súditos a se revoltarem, sobretudo se ele contextualizá-la em um mundo onde a informação está bastante disseminada, ao alcance de todos. Nos dias de hoje, fica mais difícil esconder aqueles acordos matreiros e aquelas decisões ardilosas que sempre caminharam pelos corredores escondidos da corte portuguesa, da República Velha, da ditadura Vargas, dos militares e da Nova República.
Com as redes sociais e o whatsapp ficou mais fácil enxergar aqui de baixo a lerdeza morosa do judiciário e os conchavos personalistas e interesseiros do legislativo e do executivo. Ficou mais fácil perceber também todas as “mamatas” que adoçam a vida dos três poderes da quase república, principalmente em Brasília, muito provavelmente a cidade mais cara e menos produtiva do país.
Mas acho que o senhor Barroso também descuidou-se em relação ao escritor Lima Barreto, talvez o brasileiro que melhor captou os subterrâneos de nossa quase república. Há mais de 100 anos, ele disse: “a república no Brasil é o regime da corrupção… para que não haja divergências, há a ‘verba secreta’, os reservados deste ou daquele ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência… Ninguém quer discutir, ninguém quer agitar ideias. Todos querem ‘comer’. ‘Comem’ os juristas, ‘comem’ os políticos, ‘comem’ os médicos, ‘comem’ os advogados, ‘comem’ os engenheiros, ‘comem’ os jornalistas: o Brasil é uma vasta ‘comilança’.”
Como muito pouco parece ter mudado desde essas palavras do Lima Barreto, talvez o ministro deva tirar seu capelo e sua toga, descer um pouco de seus assentos supremos e dar uma passeada pelas ruas movimentadas das cidades. Nessa caminhada ele poderá perceber que o país está acordando. Com mais informação, os brasileiros talvez estejam se transformando, saindo do papel de súditos passivos para assumir o de povo que luta pelos seus direitos.
E espero toda a elite política comece a pensar nisso o mais rapidamente possível, para que nenhum outro brasileiro repita essa estúpida atitude de tentar explodir alguma coisa. O Brasil só vai mudar quando lutarmos com alma, postura e argumentos.
Mas, até lá, por favor, nada de bombas!








