A louca das plantas

Começou num dia das mães. Era pra ser coisa simples, uma lembrancinha apenas. O filho levou uma kalanchoe pra casa. “Nossa, que linda!”, exclamou a mãe encantada. A filha, com ciúmes do encantamento da mãe, presentou a matriarca no aniversário seguinte com uma orquídea lilás. “Meu Deus, como sou agraciada!”, disse a mãe. O pai, que não queria ficar pra trás, comprou uma boca-de-leão bem florida no aniversário de casamento. “Que primor!”, sorriu a mãe, ainda apaixonada pelo seu eterno namorado.
E assim, estabeleceu-se uma tradição de família. “Presente bom é planta!” E a mãe, nem achava ruim, abraçava os vasos, potes, caqueiros e xaxins como quem pega um bebê pela primeira vez. Largava tudo e corria pro jardim pra plantar o novo presente, passando o resto do dia afundada na terra, em meio a lama, adubos e cascas de árvores.
Os amigos, também perceberam a tradição e começaram a presentear a mãe com plantas variadas. No churrasco de domingo alguém sempre levava algo. Era kalanchoe, samambaia, copo de leite e suculentas que não acabavam mais! E a mãe, feliz, sabia distinguir de longe a diferença entre uma “nephrolepis exaltata” e uma “adiantum capillus-veneris” com a precisão de uma botânica… e ai de quem dissesse que era tudo samambaia!
Mas a pandemia chegou e as festas ficaram escassas. Os filhos, casados, vinham pouco à casa da mãe. “Precisamos preservar os velhinhos”, dizia a filha, assustada com tanta notícia de morte. Ver os netos, só por vídeo chamada. A mãe, triste, entendeu a necessidade do isolamento e mergulhou de cabeça na jardinagem. Passava horas a fio nos canteiros de terra da casa, plantando, desplantando, transferindo mudas, inventando berçários de suculentas, enxertando orquídeas nas pitangueiras do quintal, tudo para se distrair e esquecer o medo da maldita doença moderna que grassava a sociedade.
Mas aquilo que parecia terapêutico, virou uma obsessão quase sombria. Ninguém sabia mais o que fazer, a mãe largou a casa, seus afazeres e rotinas, tudo em prol das plantas. Após seis meses de pandemia, a casa parecia uma selva! Bromélias no quarto, samambaias na sala, fícus na cozinha, costela-de-Adão no sofá, em todos os ambientes da casa havia plantas! Era assustador… O fogão virou uma estufa, repleto de suculentas. Na banheira da suíte, uma plantação de ferozes e selvagens dioneias foi instalada. Os filhos tentaram intervir, os amigos, mas tudo em vão – o medo de contato por conta da Pandemia foi maior do que a preocupação. O marido, desesperado, tomou uma decisão drástica: Pegou um facão da cozinha, que estava servindo de estaca para uma jiboia bem verdinha, correu para o quintal e começou a cortar tudo que era verde. Até a sua velha farda do exército foi despedaçada nesse arroubo de desespero.
A mãe, por sua vez, surtou automaticamente. Verde de raiva ficou, pegou o rastelo preferido, e bateu certeira no tronco do marido. O golpe foi fatal, o marido caiu ali mesmo, estatelou-se como um jacarandá, num buraco que a mãe fizera a pouco para plantar uma jaboticabeira que não cabia mais no vaso original. Com os olhos cheios de lágrimas e aos gritos, a mãe não hesitou, pegou a pazinha de jardinagem e aprofundou o buraco da jaboticabeira. Agora, tinha que caber os dois ali, não dava pra colocar a árvore no vaso de novo. Enquanto cavava, a mãe só conseguia pensar “eu não queria, eu não queria…” e era verdade, a rastelada não era para matar, era só para dar uma podadinha naqueles pensamentos daninhos do pai que insistiam em sufocar suas plantinhas fofas…
Exausta no fim do dia, a mãe entrou na casa de novo. Finalmente o pai e a jaboticabeira estavam devidamente plantados – pai no fundo do buraco e a jaboticabeira por cima. A mãe achou melhor desacelerar com o hobbie, e deu uma geral na casa.
Isso tudo aconteceu um pouco antes da primavera, época em que a Pandemia abrandou, e por coincidência, logo a jaboticabeira deu frutos pela primeira vez! Os filhos e netos voltaram a visitar a casa dos pais, mas logo perguntaram pelo pai. “Ah, ele se irritou com as plantas e sumiu no mundo”. Era fácil acreditar, ele sempre desaparecia, ficava meses perdido no mundo. E a polêmica logo se dissolveu, quando viram a jaboticabeira carregadinha! Até hoje, ninguém sabe do pai, e de vez em quando todo mundo sente uma saudade danada dele, mas até parece que a jaboticabeira entende e arrebenta de dar jaboticaba nesses dias de saudades… Daí todo mundo se distrai…Menos a mãe, que desde então prefere comer pitangas a jaboticabas!








