Crianças resgatadas da floresta, após 27 dias sem comer, estão ganhando peso
Os dois garotos, de 7 e 9 anos, que moram na cidade de Manicoré (AM), e foram resgatados na terça-feira, após passar 27 dias perdidos na floresta amazônica sem qualquer tipo de alimento e bebendo apenas a água da chuva, estão se recuperando bem. Os irmãos foram dados como desaparecidos no dia 15 de fevereiro, quando saíram para caçar passarinhos na área rural do município de 56 mil habitantes.
Eles foram internados nesta quinta-feira (17) no Hospital da Criança da zona oeste de Manaus para se recuperarem de quadro de desnutrição grave e serem avaliados por um pediatra. Os irmãos, indígenas da etnia Mura, se perderam na mata ao sair da aldeia Palmeira, na região do Lago do Capanã no dia 18 de fevereiro e não voltaram para casa.
A família das crianças pediu ajuda às autoridades e as buscas, sem sucesso, feitas pela equipe de bombeiros e pela polícia, duraram cerca de cinco dias. A família e amigos permaneceram então à procura das crianças.
Na terça-feira (15), um morador da região, ao entrar na mata para serrar árvores, avistou as duas crianças deitadas. Ao vê-lo, elas pediram socorro, segundo o relato. O homem contou à polícia que logo imaginou que seriam as crianças desaparecidas da aldeia Palmeira.
Os dois irmãos estavam a cerca de 15 quilômetros do ponto em que foram vistas pela última vez. “É uma região bem inóspita”, afirmou o coordenador do Dsei Manaus (Distrito Sanitário Especial Indígena de Manaus), Januário Carneiro da Cunha Neto.
“Ele [o homem que as resgatou] carregou os dois e colocou na lancha para levá-los para a cidade e o hospital. Só consigo dizer que o que salvou os dois foram os espíritos da floresta. Foi Deus. Porque já não havia esperança de achá-los, embora a família nunca tenha desistido”, disse Cunha Neto.
De acordo com Suzy Serfaty, a médica que fez o primeiro atendimento das crianças no hospital de Manicoré (AM), os dois estavam com desnutrição e desidratação graves e lesões na pele. Estavam lúcidos, segundo ela, mas com dificuldades de comunicação nas primeiras horas.
Um dos meninos chegou ao hospital com 12,3 kg; o outro, com 15,6 kg. Nesta quinta, haviam melhorado, e pesavam 14,5 kg e 18,3 kg, respectivamente. “Mas estavam visivelmente consumidos e em estado de caquexia, que seria o grau mais alto da desnutrição, quando o corpo já não tem mais o que consumir para transformar em energia e acaba se utilizando da energia que tem nas fibras musculares para se manter vivo”, disse a médica.
Os dois, segundo a médica, passaram a se comunicar melhor no segundo dia. “Quando chegaram estavam sem se comunicar, principalmente o menor, mas, no dia seguinte, já conseguiam falar sobre as queixas dolorosas e a fome que sentiam, mostrando que não apresentavam nenhum déficit neurológico”, declarou. “Eles foram daqui [Manicoré] já bem, sem risco de morte. Com estabilidade dos sistemas e melhora clínica e laboratorial. Os rins, que eram uma preocupação também, já estavam normalizados”, afirmou a médica.
De acordo com a assistente social do Dsei Manaus Rossineia Lima, que acompanhou a chegada das crianças em Manaus, os dois estavam, nesta quinta-feira, na emergência, sendo avaliados para exames. Os garotos estavam acompanhados dos pais, que têm outros oito filhos. “Vamos continuar dando o apoio até o momento das altas das crianças”, disse.
Para o coordenador do Dsei Manaus, este é um caso isolado e difícil de prever quando possa ocorrer em uma comunidade. “É humanamente impossível prever um caso desse, são fatos isolados, uma fatalidade. Na região, é normal a criança brincar na floresta atrás de passarinhos e pequenos roedores”, concluiu.




