Por que as árvores caem nas tempestades? Especialistas apontam motivos
Com a alta de eventos climáticos severos, engenheiros do Crea-SP apontam que a maioria das quedas decorre de lesões preexistentes
A frequência e a intensidade crescentes de fenômenos climáticos severos, impulsionados pelo El Niño, tempestades tropicais atípicas e a passagem de ciclones-bomba, trouxeram à tona um ponto de atenção nas cidades brasileiras: a arborização urbana. A imagem recorrente de árvores de grande porte caindo sobre fiações elétricas, veículos e residências se tornou uma questão de segurança pública, saúde coletiva e infraestrutura. Diante da emergência climática, a vegetação urbana necessita de uma abordagem técnica, desde o plantio até o manejo.
A gestão das árvores nas cidades deve seguir preceitos científicos da silvicultura urbana, disciplina que alia o conhecimento botânico, a biomecânica vegetal e a Engenharia para planejar, conduzir e monitorar o patrimônio verde das metrópoles.
Diferente das florestas nativas, onde as árvores crescem em densidade e protegem umas às outras do impacto direto das rajadas, a árvore isolada na cidade enfrenta o estresse contínuo do asfalto, da compactação do solo, do confinamento de raízes e de sucessivas agressões estruturais. Especialistas ressaltam que rajadas de vento a partir de 50 km/h a 60 km/h já exercem uma força considerável sobre tipos de árvores plantadas em ambientes urbanos e que estão fragilizadas. Quando os municípios são atingidos por tempestades severas ou ciclones com ventos que alcançam de 80 km/h a 100 km/h, a pressão biomecânica expõe qualquer defeito estrutural preexistente nas árvores.
A identificação prévia de árvores comprometidas é a medida mais eficaz para evitar ocorrências do tipo durante o período de chuvas intensas. A água em excesso atua como um gatilho para árvores que já possuem lesões ocultas, explica a engenheira florestal Evandra Bussolo Barbin, presidente da Associação Paulista de Engenheiros Florestais (APAEF) e representante do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP) na Coordenadoria Nacional de Câmaras Especializadas de Engenharia Florestal do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea).
“O encharcamento prolongado do solo reduz significativamente a capacidade de ancoragem das raízes. No entanto, é fundamental compreender que uma árvore verdadeiramente saudável dificilmente tombará apenas pela força do vento. Na vasta maioria dos casos, existe uma lesão ou um defeito estrutural preexistente que é agravado no momento da tempestade”, explica Evandra.
Para conter esses riscos, os especialistas orientam que o poder público e a população fiquem atentos aos sinais de alerta. Entre os aspectos estruturais e biomecânicos, a inclinação recente ou acentuada do tronco, rachaduras e fendas profundas no lenho, bifurcações em formato de “V” com casca inclusa e copas pesadas de um único lado. Do ponto de vista do sistema radicular, é preciso atentar para a elevação ou trincamento do solo ao redor da base, além de raízes expostas e rompidas por obras.
Já os aspectos sanitários incluem a presença de cavidades ocas e extensas no tronco, galhos secos de grande porte e a proliferação de fungos na base, indicando o apodrecimento interno da madeira por ação de patógenos. O diagnóstico definitivo deve ser realizado por Engenheiros Agrônomos ou Engenheiros Florestais registrados no Crea-SP, utilizando inspeção visual qualificada e equipamentos de precisão, como tomografia do tronco e ultrassom arbóreo.
Um dos pontos de maior alerta é o papel da poda incorreta. Longe de ser um corte aleatório de galhos, a poda é definida pela Engenharia como um procedimento cirúrgico na estrutura viva do vegetal. O engenheiro agrônomo José Walter Figueiredo, vice-presidente da Associação de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Ribeirão Preto (AEAARP) e membro do Comitê Técnico de Normatização e Manejo Arbóreo do Crea-SP, esclarece que a má execução do corte das árvores pode criar danos irreversíveis e levar anos até culminar na queda da árvore.
“A poda correta é preventiva e visa conduzir a planta enquanto o galho ainda é pequeno, adaptando o indivíduo ao espaço urbano com fiações e vias. Quando o corte é feito por uma pessoa sem conhecimento técnico, frequentemente se deixa um resto de tronco, o que chamamos de ‘cabide’. A árvore só consegue cicatrizar se o corte for realizado exatamente no ponto anatômico correto, chamado de colar ou crista. O toco deixado morre, apodrece devagar e atrai cupins, criando um buraco que avança para o interior do tronco. É um processo silencioso que leva de 5 a 20 anos, deixando a árvore completamente oca e vulnerável sem que o morador perceba”, detalha Figueiredo.
Evandra acrescenta que a chamada “poda drástica”, que é o rebaixamento severo da copa frequentemente realizado sob a falsa justificativa de evitar acidentes, gera o efeito oposto ao desejado. “Cortar excessivamente a galhada mutila a planta, elimina sua capacidade fotossintética e causa um desequilíbrio biomecânico grave. As brotações que surgem após uma poda drástica têm fixação frágil e se quebram com facilidade em tempestades futuras. Mais do que podar muito, o segredo é podar com técnica e frequência adequada. A manutenção preventiva sai mais barata do que remediar os danos materiais e humanos de uma queda”, afirma.
Após a passagem de vendavais e ciclones, é comum que árvores sofram avarias parciais. Nestes cenários, os especialistas reforçam que o corte ou remoção total não deve ser a primeira resposta automática, salvo em casos de risco iminente e irreparável. Ao passar por avaliação técnica especializada, fatores como a integridade do sistema radicular, a capacidade de regeneração da espécie e a proximidade de alvos são ponderados. Diversas espécies com inclinação leve ou perda parcial de galhos podem ser preservados e recuperados por meio de poda de reequilíbrio ou manejo do solo, conciliando a preservação ambiental com a segurança da coletividade.
Com a perspectiva de que os fenômenos climáticos extremos passam a fazer parte da rotina das cidades, a reestruturação da arborização urbana se torna essencial. “A silvicultura urbana exige o acúmulo de conhecimentos de Agronomia e Engenharia Florestal. Para os novos plantios, não podemos escolher espécies apenas por apelo estético ou econômico e que não possuem a adaptação ideal para todas as nossas condições urbanas. Devemos focar nas espécies dos biomas locais, que evoluíram durante milênios adaptadas ao nosso solo e clima”, enfatiza Figueiredo.
Evandra reitera que o caminho para cidades mais seguras não é pela eliminação da vegetação, mas sim pelo seu planejamento estratégico. “Não existe uma espécie 100% à prova de fenômenos climáticos extremos, mas sim o plantio correto, no lugar correto, com espaço adequado para o desenvolvimento das raízes e acompanhamento profissional contínuo. Diante das mudanças climáticas, a arborização urbana bem gerida não é a causa dos problemas, mas sim a principal solução para tornar nossos municípios mais sustentáveis e resilientes aos ventos do futuro”, salienta a engenheira florestal.
Sobre o Crea-SP – Criada há 92 anos, a autarquia federal é responsável pela fiscalização, controle, orientação e aprimoramento do exercício e das atividades dos profissionais das Engenharias, Agronomia e Geociências. O Crea-SP está presente nos 645 municípios do Estado, conta com cerca de 380 mil profissionais registrados e mais de 110 mil empresas registradas.



