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Eleição na Venezuela. Paz ou banho de sangue?

        Vivemos um fim-de-semana tenso no continente sulamericano. A eleição na Venezuela, país vizinho de onde o Brasil já acolheu mais de 500 mil refugiados da crise político-econômica, deverá transcorrer em clima de confronto que poderá ser selvagem. Há muito tempo aquele país, que foi uma das mais fortes economias do mundo, vem em declínio apesar de possuir a maior reserva de petróleo do planeta (mas não explorá-la adequadamente).

As eleições passadas, onde Nicolás Maduro – no poder há 13 anos, desde a morte de Hugo Chávez – já foram denunciadas como frutos de fraude. Agora, apesar de ter assumido com a comunidade internacional (inclusive o Brasil) o compromisso de eleições limpas, transparentes  e regulares, o governante e seus aliados vetaram a candidatura de oposicionistas que poderiam vencer e, mesmo com um candidato menos potente de que a líder vetada, o presidente disse que se ele (Maduro) perder, poderá haver um “banho de sangue”. E ainda deu-se ao luxo de contestar e ironizar o presidente Lula, quando este estranhou a declaração. Não só debochou como acusou as eleições brasileiras de não serem auditáveis (e confiáveis). Por certo uma tentativa de nos equiparar ao que pretende fazer no seu país.

        Mesmo nesse quadro, Lula despachou o assessor Celso Amorim para Caracas para acompanhar a eleição como observador. Mas, enquanto o brasileiro viajava, o governo venezuelano impediu que quatro ex-presidentes de países amigos chegassem ao país, também como observadores. Ao mesmo tempo as fronteiras foram fechadas , proibido o uso de armas brancas ou de fogo e suspensa a venda de bebidas alcoólicas em todo o pais, até a segunda-feira. A situação é tensa. Tanto que a Polícia Federal e as Forças Armadas brasileiras trabalham em regime de prontidão na fronteira  Brasil-Venezuela para prevenir qualquer anormalidade que atinja nosso território.

        Vêm de Caracas a notícia de pesquisas eleitorais que prevêem a eleição terminar com a vitória do candidato de oposição Edmundo Gonzalez Urrutia com 60% dos votos e que Maduro alcançará apenas 30%. Não sabemos até onde se pode confiar nesses números, principalmente num clima tenso e ameaçador como o lá encontrado. Mas, de qualquer forma, há o risco de confrontos e até de guerra civil. Oxalá tudo não passe do risco.

        O chavismo-madurismo quebrou a Venezuela e cultiva  maus-hábitos políticos. Maduro é considerado ditador,  como foi Chávez, antes dele. Os acontecimentos recentes demonstram que não é seu costume cumprir compromissos que assume. Para evitar os riscos de uma eleição tensa, é necessário o respeito entre os concorrentes até porque política se faz dentro da convivência dos diferentes. Cada segmento apresenta suas propostas, o povo vota na que mais lhe parece adequada e quem reune mais votos é eleito, toma posse e governa. O ideal seria colher o votos até dos exilados pois estes também têm interesses no país.

        Esperamos que, apesar das bravatas de Maduro, a eleição termine em paz. Vença ele ou seu opositor. E que não haja fraude ou qualquer outra irregularidade que possa desclassificar o certame. Que Celso Amorim seja bem sucedido na sua missão de observador e a amizade Brasil-Venezuela seja preservada, apesar dos desencontros de ultimamente. Lembremos que, além da questão eleitoral, o Brasil também divergiu da Venezuela  meses atrás quando Maduro tentou anexar ao seu país uma parte da Guiana rica em petróleo e minerais. Lula foi contra, advertiu que não admitiria a passagem de tropas pelo território brasileiro para chegar à terra pretendida e, para garantir que isso não ocorresse, colocou os militares da área em prontidão.

        Desejamos que os irmãos venezuelanos tenham a oportunidade de escolher livremente o seu futuro governante e que a vontade soberana do povo seja respeitada e cumprida. Que Maduro governe da melhor forma se tiver maior número de votos; mas, não os recebendo, entregue o poder sem qualquer objeção. Afinal, não foi eleito com clausula de vitaliciedade. Precisamos de paz no continente...  

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves

É dirigente da Aspomil (Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo).

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