“Luta pra parar de pitar”

Inhaim?
Com tanto “pobrema nos nelvos” porque a mulher me deu 15 anos a mais de idade, fiquei tão deprê que comecei a pitar igual uma sapa. “Palermo”, o mais barato. Dois maços por dia. E comecei a tomar café também, pra fazer boca de pito, igual uma maluca. Pior que fizeram uma Campanha Nacional sem Tabaco (eu vi na televisão). Será que aquele tabaco que eles tocam no terreiro agora tem dia nacional? A Lolosa me explicou pelo “uatis” que era para parar de pitar.
Fiquei sabendo de uma mulher na padaria que o SUSI tem tratamento que põe adesivo e conversa com psicólogo. Diz que o psicólogo explica que fumar á uma merda. Fiquei três meses na fila por uma vaga. E pitando dois maços de “palermo” por dia.
Chamaram. Prega aquele adesivo de nicotina que sai fedido depois. Acho que mistura com suor, sei lá. Eu sei que fede. Aí eu misturei adesivo com cigarro. Quanto mais a psicóloga mandava, mais eu pitava. Carai. E bebendo mais do que um gambá. A psicóloga disse que eu era um problema de saúde pública. Que era por causa de um tal de IPI que o governo deixava vender aquela droga de cigarro. E eu com o IPI? Se tem pra comprar, eu compro.
Resolvi chamar a Lolosa e a Tobiniana pra tirar umas “opinião”. As meninas me botaram mais farinha na cachuleta. Disseram que eu estava parecendo uma velha, que meu cabelo tinha raleado e eu estava com bolsa no “zóio”. A genial Tobi me aconselhou a procurar um benzedor. Podia ser encosto. Como eu já tinha feito macumba e tinha dado errado, resolvi ir no benzedor. Era o único jeito.
Fomos as três de Corcel lá no bairro Troca-Tapa, no terreiro do Painho do Canto B (parece que existiu uma Menininha do Canto A, então ele ficou sendo o Painho do Canto B). Contei meu problema pra ele.
-“Mizifia, ocê vai ter que fazer um ritual pra largá esse negócio ruim”
E eu:
-“Painho do Canto B, o que eu faço?
Ele fechou os “zóio”, acendeu um cachimbo, “balangou” minha cabeça e falou: “Vô te ensiná o ritual”.

O negócio era feio. Eu tinha que ficar três dias sem tomar banho, depois colocar uma saia de chita sem calcinha. Tinha que rodar em volta do cigarros, chacoalhando a saia e “tocando de roda”, dizendo o seguinte: “roda, roda periquita, quando a minha pitrica sentá, eu vou parar de fumá”. Depois eu tinha que abrir o cigarro, colocar aquela bagaça de fumo dentro de um copo com água, botar um pires em cima e deixar no criado ao lado da cama a noite inteira. Antes de amanhecer, sem por os pés no chão, tomar água em jejum. Deitada, sem deixar um pingo cair no chão senão era maldição. “Gorfei” igual a mocinha do Exorcista e até os pés de galinha que eu tinha jantado foram embora.
Se eu parei de fumar? Porra nenhuma. E pitei foi mais. Só de raiva do Paizinho do Canto B. Também, ficar velha pra quê? Pra botar numa cadeira de rodas e escutando os outros falando assim: “tira a véia do sol, põe a véia no sol”. Não quero dar trabalho pra ninguém…








