Lulu Canavial e o Milagre de Natal – Parte II

Inhaim? Êh, lasquêra!
Ia pegar a roupa para começar o trabalho de assistente de Papai Noel no Besta’s Shopping. Peguei o busão às 6h, antes dei capim pro Tedão, “mio” pras galinhas, ração pra Nininha e agora arrumei um porco pra quem tratei com lavagem. Quando o bicho crescer, vou matar e comer carne de porco um ano. Pobre que é pobre de verdade que nem eu não enjoa das coisas. O busão fez as “bardiação”, lotado, cheirando a chulé e sempre o passageiro de trás encosta o joelho nas costas da gente. Cheguei, peguei o Circular e fui pro “shops”.
A supervisora da agência entregou-me a roupa. Era pra ficar com a roupa pelo menos três horas para se adaptar. Fui ao banheiro me aprontar. A roupa era um vestido vermelho, bem apertado, botinha Carla Perez número 41 – eu calçava 40 porque fui criada na roça, no meio do Canavial e meu pé cresceu. Os dedos são tão grandes que não têm corpo, pescoço e cabeça. Meu dedão parece o da imagem de Jesus. E entregaram um gorro. O tecido de cetim vermelhim transpirou tanto que fiquei com uma pizza debaixo dos braços e um cecê do cão. Nem bicarbonato com limão, nem desodorante “roloni” deram jeito. Era ficar com o cecê. Cetim é o capeta de quente. Tive que usar cinta modeladora para o vestido caber e o peito subiu e ficou embaixo do queixo, parecendo porta-biscoito. Tava com cheiro de jaula de leão. E a meia de “nilon”? Um calor do cacete. Parecia aquelas do 1406 (quem se lembra? Acho que só eu!!!!). A cinta foi para disfarçar a celulite, que parece crateras da lua, e as varizes, o mapa de rios do Brasil.
Minhas cabeça estava dororida. No busão eu colocava bobes e lenço na cabeça para abaixar a choupana. Fora o “laqueti” para deixar os fios no lugar. Joguei tanto que parecia O Urso do Cabelo Duro. Me maquiei todinha. Começaria no outro dia. Fiquei pelo “shops” fazendo o reconhecimento da área e travando amizade com os chapas. O primeiro que eu fiz foi com o dono da choperia. “ô, amigo, se eu arrumar uns copos de guaraná você põe chopis pra mim?”. Pensei assim: durante o trabalho, para molhar o bico, eu ia dar umas saidinhas. Esquema pronto.
Fiz amizade com o dono de tabacaria. Um japonês baixinho, com a cara daquele “mininu” do “prayistachion”, o tal do Yudi. Ele se chama Kuxi Xang. O proprietário da “Sex Chopis” Pirocas & Piriquitas tava sempre encrencando com o japa, que colocava o preço do “ralls” preto lá embaixo, atraia a freguesia. Ele me confidenciou (ui, quer me comer) que era lavagem de dinheiro. Ninguém entrava na lojinha de putaria, só de vez em quando aparecida algum desavisado querendo comprar alpiste.

Levei pão com “mortandela” para não comer no shops. Iria economizar. Aquele “meiquidonaldis” é um roubo. E aquele Fogo de Chão? Babei. Aquele monte de gente cortando carne com gordurinha e conversando. E eu sozinha. Ah, não me importo não. Conheci o macarrão ao vivo, sem cortes e sem edição. Sob um fogão que parece o que queimou a Joana D’Arc. Prefiro o meu. Massa de tomate Elefante de potinho e carne de terceira moída. E o macarrão marca Perocco, aquele grosso que lembra “aquilo”. Alimenta um batalhão. Depois a gente arrota. Baratinho. Quero usar eus “800 real” mais vale transporte para comprar uma penteadeira usada de uma comadre. Tem espelho meio poído, mas vale.
Troquei de roupa, guardei meu uniforme de trabalho, tirei a cinta modeladora que a esta hora estava dando gases (parecia um botijão de gás) e peguei o busão de volta. Delícia usar penhoar e chinelinho “chilep, chlep”, e “deixar as peitolas livres, escoltando no chão. Dá até para saber se está quente ou frio…êh, lasqueira.








