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Carlos Amorim: “nós acreditamos que toda e qualquer construção política precisa ser coletiva tanto na teoria quanto na prática”.

Historiador pela Unesp, docente em cursos preparatórios e pré-vestibulares, ativista político e cultural, Carlos Amorim nasceu em Franca, em 26 de abril de 1980 e é uma voz relevante no cenário.

Na entrevista de hoje ele faz uma boa análise da guinada à extrema direita no mundo, reflete sobre antipetismo, antipolítica, comunismo imaginário, cultura.

Folha de Franca – Fale sobre o seu ingresso e percurso também no universo da política.

Carlos Amorim – Eu era estudante secundarista no final dos anos 80 e início dos anos 90, período em que aconteceu um grande esforço nacional de recriação dos grêmios estudantis. Deste modo, me envolvi muito cedo com os grêmios das escolas em que eu estudei e, posteriormente, com a reconstrução da UMES em Franca, entidade municipal que representa os estudantes secundaristas. Ao chegar na universidade, também participei do Diretório Acadêmico e do Centro Acadêmico de História. É por isso que eu costumo dizer com orgulho que a minha “escola política” foi o movimento estudantil.

Folha de Franca -Que avaliação você faz do Brasil hoje?

Carlos Amorim  – O Brasil é um país riquíssimo, com um povo maravilhoso, porém, governado por uma elite absurdamente cruel. Esta realidade não é de hoje, porém, assume contornos ainda mais terríveis no governo atual.

Folha de Franca -O que você diz do PT (Partido dos Trabalhadores)?

Carlos Amorim – O PT é o único partido de massas que existe hoje no Brasil. A maioria de nosso povo sofrido sabe que os governos petistas foram os únicos que, efetivamente, fizeram algo em favor dos mais pobres.

Folha de Franca -E sobre o antipetismo e a antipolítica?

Carlos Amorim – O “antipetismo” é algo que transcende o PT e é apenas a face atual de algo muito mais antigo: o ódio contra os pobres e contra toda e qualquer política social. Do que acusam o Partido dos Trabalhadores? De corruptos, não é mesmo? Ora, do que acusaram Getúlio Vargas até os minutos finais de sua vida? De corrupto! Acaso Juscelino Kubitschek e João Goulart não enfrentaram as mesmas acusações? Este último, inclusive, foi deposto para evitar o “avanço do comunismo”. Em outras palavras, qualquer força que deseje o avanço das políticas sociais, ou seja, qualquer força política que deseje o progresso social (os progressistas), serão violentamente combatidos por aquela elite que não deseja progresso nenhum e quer conservar tudo exatamente como está (os conservadores). Parte do sucesso destes últimos está em misturar pautas econômicas, sociais e morais como se tudo fosse uma coisa só. Desta forma criou-se uma confusão generalizada em uma parcela importante da população que passou a enxergar a realidade de maneira binária: NÓS X ELES. Tal raciocínio maniqueísta não permite meios-termos e acaba conduzindo a conclusões absurdas como: eu acredito em Deus, sou contra o aborto, logo, preciso ser favorável à privatização dos Correios. Colocado desta forma, não faz sentido nem para quem acredita nisso, porém, a criação e o patrulhamento das bolhas ideológicas têm funcionado muito bem. A “antipolítica” tem a ver com isso também. Pessoas desiludidas com a política tradicional muitas vezes acabam buscando “soluções” fora da política, como se isso fosse possível! João Dória é um exemplo disso. Conseguiu vender a ideia de que ele não seria um político, e sim, um gestor! Como se a máquina pública pudesse ser gerida da mesma forma que uma empresa! Trata-se de uma visão completamente equivocada da gestão pública. Uma empresa precisa gerar lucro, a coisa pública precisa gerar o bem-estar social. São objetivos completamente diferentes e que exigem medidas muito diferentes para serem alcançados. Um outro exemplo da “antipolítica” é o atual presidente, Jair Bolsonaro. Mesmo sendo um deputado que passou quase 30 anos no Congresso Nacional, conseguiu vender a ideia de que seria um “outsider”, alguém de “fora da política”. Tanto um quanto o outro alimentaram a ideia de que os problemas estavam nas pessoas, ou seja, nos “políticos”. Bastaria então “tirar os políticos”, colocar as “pessoas certas” nos “lugares certos” e tudo se resolveria. No estado de São Paulo colocamos um “gestor”,e, na presidência, um “mito”. O resultado está aí: se algo mudou, não foi para melhor. A propósito, o ex-juiz Sergio Moro já está em pré-campanha Brasil afora devido ao lançamento de seu livro. Ele é outro que vai tentar surfar na ideia da antipolítica: alguém que não é da política e que luta contra o sistema! Tanto é que seu livro se chama “Contra o Sistema da Corrupção”. Ao ler o título pensei: por que tantos clichês? A resposta surgiu em menos de um segundo: porque funcionam!

Folha de Franca – Como chegamos ao bolsonarismo?

Carlos Amorim  – Nós vivemos um movimento mundial de reorganização da extrema direita. Tal movimento só tem sido possível graças à internet e às novas tecnologias. Digo isso, pois tudo aquilo direta ou indiretamente ligado à extrema direita (homofobia, xenofobia, racismo, misoginia) jazia latente nos seios das sociedades. Era algo que apenas se manifestava em piadas ditas à boca miúda ou em ambientes majoritariamente masculinos como beiras de campo de futebol ou as mesas de plástico dos botecos. Algo de que as sociedades se envergonhavam, mas que não combateram devidamente. Foi a internet que tornou possível que “o idiota da aldeia”, nas palavras de Umberto Eco, ou mesmo o “tio do pavê”, como costumamos dizer por aqui, descobrissem que existem outros milhares como eles esparramados pelo Brasil e pelo mundo. Foi assim que muitas coisas que só podiam ser ditas aos sussurros, passaram a ser bradadas em alto e bom som. Esta extrema direita, representada nos EUA pelo Trump e na Inglaterra pelos entusiastas do BREXIT, encontrou na família Bolsonaro seus representantes ideais no Brasil. Temos então a vitória da “antipolítica”, temperada com “antipetismo”, coberta com um falso moralismo pseudorreligioso e com gotas de um certo patriotismo que se revela cada dia mais entreguista. Certa vez, ao debater na internet com um parente sobre o seu apoio ao presidente, recebi a seguinte resposta: “Ele é como nós!”

Folha de Franca -Que projeções você faz para 2022?

Carlos Amorim – O povo brasileiro saberá escolher entre o projeto de Brasil que deu certo e aquele que fracassou.

Folha de Franca -E no âmbito político de Franca, o que você diz?

Carlos Amorim – O campo progressista está se reorganizando na cidade e aumentando a sua interlocução com setores que, até recentemente, não se interessavam em discutir política. A Frente Fora Bolsonaro, composta por diversos partidos políticos, associações e sindicatos é um bom exemplo disso.

Folha de Franca – Como você avalia as políticas públicas relacionadas à cultura, na cidade?

Carlos Amorim – Muito tímidas. Franca é uma cidade riquíssima culturalmente, mas, infelizmente, não temos políticas públicas que façam jus à diversidade de nosso universo cultural. Falta diálogo entre a Prefeitura e os agentes. Passou da hora de nossos gestores criarem as condições para a criação de um Sistema Municipal de Cultura com lei e orçamento próprios. Temos muitos agentes culturais dispostos a ajudar neste processo. Falta sentar para conversar e agir!

Folha de Franca -Quais são os seus projetos? Concorrerá às eleições?

Carlos Amorim – Eu faço parte do Coletivo da Cultura, um esforço de construção coletiva que busca uma nova forma de fazer política, saindo da democracia representativa e indo para a democracia participativa. O Coletivo é uma construção plural. Cada peça é igualmente importante em nossa engrenagem. Todos precisam assumir tarefas de acordo com as suas condições e possibilidades. Acreditamos que juntos somos muito mais fortes e que a ação coletiva é a única capaz de subverter a lógica do jogo de interesses que impera na política institucional. Eu representei nominalmente este coletivo na eleição do ano passado e ficamos na primeira suplência do nosso partido. Certamente teremos candidatos nominais nas eleições do ano que vem, porém, acreditamos na alternância de nomes como uma forma de combater o personalismo. Nós acreditamos que toda e qualquer construção política precisa ser coletiva tanto na teoria quanto na prática.

Folha de Franca – O que a História pode nos mostrar em relação a essa guinada à (extrema) direita em  âmbito mundial?

Carlos Amorim – Tanto ontem, quanto hoje. Tanto lá, quanto cá. Não passarão!

Folha de Franca — Onde estará a saída? Ou a entrada?

Carlos Amorim – Quem são os maiores interessados no preço do gás de cozinha? Quem são os maiores interessados no preço do combustível? Quem são os mais atingidos pela alta do preço dos alimentos? Somos nós! O povo que constrói esta nação com o suor do rosto! Este pessoal não pode ficar fora das decisões políticas. Ele precisa se interessar e fazer política no seu bairro, na sua escola, no seu trabalho. Brecht já falava sobre isso há muito tempo. Foi ele que cunhou a expressão “analfabeto político”. Ele nos conta em sua poesia que o analfabeto político é aquela pessoa que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Só que, mal sabe ela que é da sua ignorância política que nasce a inflação, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio dos exploradores do povo. Este é o único caminho possível: trazer o povo para o centro das decisões! Não existem “mitos”, não existem “salvadores da pátria”. O que deve existir é o povo organizado, ativo e ditando os rumos dos assuntos de seu interesse.

Folha de Franca — Portugal tem sido apontada como um bom modelo político ao reunir várias vozes de variados matizes no parlamento. O que você pensa sobre isso?

Carlos Amorim – A pluralidade de ideias é um dos pilares da democracia. Considero válidas todas as iniciativas que buscam fortalecer estas estruturas e não corroê-las, como temos visto atualmente no Brasil. No entanto, precisamos nos espelhar nestes exemplos positivos cientes de nossas diferenças estruturais. A quantidade de brasileiros que passa fome hoje no Brasil é o dobro da população total de Portugal.

Vanessa Maranha

É Psicóloga, Jornalista, Escritora Premiada, colunista da FF.

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