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O prefeito do meu quintal

Sempre tive gatilhos fáceis para imaginação e sonhos, isso era evidenciado quando criança. De família simples, meus pais não tinham condições para dispor de recursos para comprar aqueles carrinhos de controle remoto. Ou os sonhados fliperamas fantásticos de pistas com curvas e carrinhos velozes – em uma época que tínhamos o herói Ayrton Senna do Brasil. Poderia ser talvez uma forma de sentir a sensação de ser um Seninha.

Diante disso, vendo a resiliência de meus pais, compreendi desde cedo que não cabia ficar esperando. Restava-me, assim, usar aquilo que tinha de melhor, a capacidade de brincar imaginando. Então, todo e qualquer objeto se tornava o que eu quisesse. Já adulto, certa vez ouvi que brincar para criança era coisa séria. Assim como trabalhar para nós.

Latas de óleo, tampas de embalagens, arames eram partes de meus carrinhos. Uma habilidade herdada de meu pai, que também fazia seus próprios brinquedos quando criança. Gravetos eram as pernas dos jogadores de futebol. Como um palmeirense que sou, brincava horas fazendo meu time ser campeão com gols na pequena área, de falta, olímpicos, até gol de goleiro era possível.

Já fui um fazendeiro com muitos gados, todos feitos de mangas verdes que caíam do pé antes de seu tempo. As pernas e os chifres eram feitos com palitos de fósforo. Por várias vezes, fui prefeito de cidades que cabiam no quintal de minha casa. Construía estradas, pontes, rios, túneis em montes de areia que eram para ampliação de cômodos de minha casa – aquele monte de areia que brilhava os olhos de qualquer criança na década de noventa.

Talvez naquela época eu não compreendesse, mas brincar era também uma maneira de experimentar a potência do sonho e da imaginação. Uma forma de sentir o gosto da vida. Não precisava ter o carrinho de controle remoto para ser o piloto, tampouco ter a fazenda para ser o fazendeiro e a prefeitura para ser o prefeito. Bastava querer brincar e imaginar.

Quando crescemos, começamos a fazer perguntas demais. Será que consigo? Será que tenho condições? Será que é para mim? Será que alguém vai acreditar? E, pouco a pouco, aquilo que antes era apenas vontade passa a depender de uma série de justificativas. O mais curioso é que, quando criança, eu nunca me perguntava se poderia. Simplesmente fazia.

Talvez seja assim que algumas coisas deixam de acontecer. Não porque deixamos de sonhar, mas porque aprendemos a colocar limites antes mesmo de tentar. Veja, aquele menino que construía estradas, pontes e cidades no quintal não sabia que algumas coisas eram difíceis. Ele simplesmente pegava a areia e começava a cavar.

Hoje, olhando para trás, começo a refletir em que momento da vida deixamos de brincar de ser aquilo que queríamos ser. Em que momento começamos a acreditar que algumas coisas não eram para nós? Talvez a infância não seja apenas o tempo em que aprendemos a crescer. Talvez seja também o tempo em que ainda não aprendemos a desistir.

Dione Castro

É administrador de empresa, estudante de gestão empresarial pela Fatec, graduado em direito e um eterno curioso.

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