Colunas

Céu azul

A bruxa Carmesim se abanava com um leque que trouxera de suas viagens às terras asiáticas. Mesmo na sombra, sentia o calor de longa estiagem, com as folhas amarronzadas caindo pelas ruas, sem vento, abafado no horizonte de poeira.

Vez ou outra algum raio distante, esperança de chuva em breve, riscava pelas colinas; mas um ecoante latido demonstrava que era apenas Jhully pastoreando algumas nuvens.

– Vê se traz nuvens de chuva! – gritava Carmesim para o céu.

Não seria naquela manhã que cairia água.

Percebeu o suor escorrendo pela nuca, colocou o chapéu sobre a grama e quase cochilou na letargia de um dia tão vagaroso quando, no barulho de uma buzina, um vendedor de picolé passou com seu carrinho. Comprou um de casquinha de chocolate, pois achava chique. Abocanhou de uma vez! Estava faminta e não sabia. Pediu outro.

– De casquinha não tem mais, moça – disse o vendedor abrindo a tampa e exibindo o conteúdo do carrinho. – Tem coco queimado, milho verde, groselha, céu azul, morango…

Pegou o de céu azul meio a contragosto e também curiosidade quanto ao sabor. Primeira mordida e bem, era doce, incontestável. Mas sabor de céu? E azul?

Não disse nada ao vendedor. Pagou os dois picolés, afundou o chapéu até as orelhas, subiu em sua vassoura e se direcionou para a abóbada celeste.

Com as pontas dos dedos, puxou um pouco da imensidão azul, que espichou igual a algodão doce até se arrebentar em um pedacinho. Carmesim cheirou, experimentou com a ponta da língua e depois mastigou. Tinha gosto de água gelada com um não sei quê caramelizado. E leve, muito leve.

Uma ideia lhe veio. Voltou rápido para casa, pegou duas garrafas de vidro e voou mais uma vez para bem lá em cima. Com os vasilhames transbordando céu, saiu em busca do local que Rasqueado trabalhava. Na festa junina daquele ano, tivera o incrível prazer de saborear a canjica preparada pelo cozinheiro. Ele era a pessoa certa para fazer o que a bruxa queria.

Contudo, estava muito, mas muito ocupado com pedidos no restaurante. Horário de almoço, o que ela esperava?

Carmesim não esperava nada! Fez umas quatro bruxarias e fim, todos os pedidos atendidos. Agora Rasqueado poderia lhe priorizar.

– Você é uma feiticeira?! – exclamou o cozinheiro todo temente.

Discrição! Outra bruxaria e a memória de Rasqueado argumentou não se lembrar de nada daqueles minutos, nem como os clientes ficaram tão agradecidos.

Fingindo que era uma antiga conhecida e se valendo muito da bruxaria, Carmesim chegou àquela tarde satisfeitíssima com o sorvete céu azul que fizeram, o sabor mais aerado e equilibrado que já provara! Ficaria rica, abrindo uma loja e vendendo bilhões de baldes de sorvete!

– É, mas isso vai dar muito trabalho – gracejou enquanto, outra vez, dissipava as memórias do cozinheiro.

Voou para casa, se acomodou em uma poltrona degustando seu sorvete e espalhou calda quente por cima – pra ficar chique.

Lá fora, vários latidos de Jhully. Trovoadas e enfim começara a chover.

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

2 Comentários

  1. Uma descrição incrível de um sorvete que lembra infância, talvez seja isso um pouco de magia e por isso lembrando do doce mundo da juventude

  2. Eu ameii o conto me dei até vontade de tomar um sorvete,amo as histórias dessa bruxinha tão divertidas e cheias de aventura ansiosa pela próxima

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