Bravo Leão

A tela do celular piscou com a foto de Felicità. Sorvendo um café fresquinho, o Mago, de nome Bravo Leão Marquês, deixou o conforto de seu sofá, coçou a barba muito bem aparada e se encaminhou ao balcão onde deixara o aparelho.
Havia algumas sequências de mensagens e outras sendo digitadas na hora por uma aflita Felicità, temendo a chuva próxima e a bateria descarregada da Motinha.
Sem dúvidas que, usando magia, iria ao socorro de sua parceira da vida.
Desde quando aprendera a ler, Bravo Leão nunca mais parou de se interessar pelas artes mágicas. Quanto mais ele lia, maior era a certeza de que aprenderia alguma coisinha, mesmo com os parentes lhe desacreditando, dizendo que era uma fase, logo tomaria tino.
Que tino nada! Isso é lá remédio?
Claro que conseguiu uma profissão, a de radiologista, acompanhada de muitos concursos públicos. Junto de Felicità, mudaram de cidades tantas vezes que começaram a ter um perfeito mapa mental de rotas francanas e também um tanto da fronteira mineira.
O hobby da magia nunca foi largado de mão e, na quase tricentenária Jacuí, espairecendo pelas velhas ruas, Bravo Leão avistou uma mulher sentada ao chão, com um tapete em sua frente e vários bibelôs. Ela o percebeu atravessando a rua e não desviou o olhar um instante até ele se aproximar.
— Está com sede, garoto — disse a mulher balançando uma garrafa de plástico vazia. — Você parece que não bebe água há dias… Aqui, tome um pouco.
E em segundos a garrafa se encheu.
— É água? — perguntou Bravo Leão afastando um passo. — Como você faz isso?
Sua visão ficou nublada, muita pressão nos ouvidos enquanto sentia se afogar no momento em que uma enorme cabeça, da mulher, lhe perscrutava. Com horror, entendeu que estava dentro da garrafa, perdendo os sentidos aos poucos, levando todo o pensamento para sua amada Felicità… e então veio uma lufada!
O ar entrou em seus pulmões avassaladoramente. Temendo o incompreendido, o corpo todo molhado, Bravo Leão voltou ao meio externo com a mulher sorrindo. De dentro das vestes, ela retirou um livro e entregou para seu interlocutor de mãos trêmulas.
Quieto, desconfiado, ele voltou para casa e deixou-se perder na obscura e difícil leitura, respondendo com muxoxos às perguntas de Felicità.
Em certa data do ano seguinte, quando sua morada era em Delfinópolis, Bravo Leão conseguiu desvendar algumas palavras do livro ao encontrar um símbolo próximo das cachoeiras da região.
Descobriu que, replicando esse símbolo em qualquer lugar, uma magia se aflorava quando quisesse.
E daí veio o apelido de Mago.
Franca tornou-se alvo ferrenho dessa simbologia. Depois de dezenas de cidades, o casal Marquês decidiu viver na antiga rota dos bandeirantes, contentando-se provisoriamente ao alugar uma casa. Por fim, última mudança para o apartamento no térreo, o qual compraram.
O Mago andou por todas as ruas que achava importantes e muitas avenidas, deixando gravada a marca de sua magia.
E uma dessas marcas se encontrava na Av. Abrahão Brickmann, próximo de Felicità e sua Motinha sem energia.
Ele apareceu bem quando as primeiras gotas de chuva caíam pelo rosto da biomédica. O Mago apreciou aqueles olhos amendoados que tanto amava. Colocou a mão embaixo do queixo dela e a beijou enquanto o círculo de teleporte brilhava aos seus pés e os levava para o conforto de seu lar.









Por isso quando vou em franco sinto um pouco de magia tá explicado heheh
Gostei muito do conto! A escrita é leve e envolvente, a leitura flui muito bem e a mistura do cotidiano com a fantasia ficou muito bem feita. A forma como você vai construindo o universo e introduzindo a magia aos poucos prende a atenção, e o final fecha a história de um jeito muito bonito. Parabéns!
Muito bom esse conto 🥰 maravilhoso 🙏