O Largo das Magnólias
O traçado inicial do centro da cidade de Franca elaborado no início do século XIX reservou inúmeras áreas ao poder público, possibilitando posteriormente a implantação de praças e edifícios para equipamentos públicos. A nomenclatura inicial dessas quadras vazias era de “largos” que ficaram ociosos por bom tempo até que os ventos do desenvolvimento urbano soprassem por aqui, a partir do final do século XIX com a chegada da ferrovia. Havia o Largo da Matriz (metade da atual Praça N.S. da Conceição), o Largo das Cavalhadas (onde está o IETC), o Largo da Misericórdia (defronte a Santa Casa), o Largo do Rosário (atrás da atual catedral), o Largo da Aclamação (Praça Barão) e outros. Durante todo o período imperial no século XIX não existiram praças ajardinadas e prédios públicos de equipamentos de saúde ou educação, que só surgiriam no início do século XX, já na República.


O primeiro prédio público da cidade foi a Casa de Câmara e Cadeia, construída na década de 1840 após o célebre episódio das “Anselmadas” defronte a Rua Ouvidor Freire, ladeada pelas atuais Ruas General Telles e Marechal Deodoro e pelos largos onde depois seriam implantados o mercado municipal e o que seria conhecido inicialmente como “Largo das Magnólias”. Esses espaços públicos estavam conectados, o local do prédio e os dois largos defronte ele.
Uma das hipóteses aventadas sobre a crise das “Anselmadas” é que houve um atrito inicial entre a mãe de meu ancestral Anselmo Ferreira de Barcelos e um vizinho da família Sandoval por conta de uma discussão trivial pela divisa das casas onde moravam, no Largo das Magnólias. A faísca se transformou num violento e mortal confronto entre duas forças políticas locais (Ferreira de Barcellos x Sandovais) que ainda é algo a ser melhor estudado. O grande jornalista A.C. Coutinho estava pesquisando o tema, mas nessa cidade sem memória não obteve apoio para nos brindar com outro livro tão importante como o seu “Couro Cru” sobre a história da indústria calçadista de Franca.
Enfim, o edifício da Câmara foi o primeiro da cidade com dois pavimentos, no térreo funcionava a cadeia pública e no pavimento superior a Câmara Municipal, que de fato administrava a cidade (era legislativo e executivo ao mesmo tempo), ainda não existiam as Prefeituras. O desenho e fotos que temos desse prédio mostra um casarão sem detalhes ornamentais nas fachadas com nítidas feições coloniais, pé-direito alto, telhado em cerâmica capa e canal com largos beirais, uma linha de janelas de madeira em cada pavimento e uma porta principal.

A primeira foto que vi do Largo das Magnólias é uma reprodução do Almanaque de Franca de 1913, onde o largo aparece ocupado por duas fileiras de magnólias (nessa época o poder público ainda plantava), árvores de uma espécie da mata atlântica. No início do período republicano, em 1896, a cidade recebeu um novo e belo prédio para a Casa de Câmara e Cadeia projetada por Victor Dubugras, que a partir de 1922 foi ocupada somente como sede da Prefeitura e da Câmara Municipal quando foi inaugurada a Cadeia Nova (que continua lá, com esse mesmo uso, tombada como patrimônio histórico), essa erguida no largo onde depois também seriam construídas a Escola Normal em 1929 (depois Cel. Francisco Martins) e o novo Fórum modernista (já nos anos 1960).
Com a desocupação em 1896, a primitiva Casa de Câmara e Cadeia defronte o Largo das Magnólias foi então reformada, ampliada e transformada em escola pública, primeira sede da escola Cel. Francisco Martins. Os beirais foram substituídos por uma platibanda com calhas, mas o resto se manteve sem grandes alterações. Meu pai fez o curso primário nesse prédio no início dos anos 1930 e contava sobre a grande escadaria de madeira que subia para as classes no pavimento superior e o pátio ao ar livre ao fundo onde brincavam no recreio (hoje é o prédio dos Correios).

Uma das fotos antigas mais bonitas de Franca, em minha opinião, é aquela de 1940 em preto & branco onde crianças brincam ao lado do monumento ao Soldado Constitucionalista (foto que abre esse artigo), tendo ainda ao fundo o velho prédio da Casa de Câmara e Cadeia que logo seria demolido (em 1944) para a construção do “Palácio dos Correios” abrindo espaço para uma nova praça denominada David Ewbank entre o novo edifício dos correios e o mercado municipal erguido no início dos anos 1920 na gestão do prefeito Torquato Caleiro. A demolição abriu a perspectiva da praça tendo ao fundo o sobrado da família Vilela Rosa (onde foi a escola Cultura Inglesa), hoje também demolida para dar lugar a um prédio comercial amorfo. Com toda razão, o prédio dos correios, o primeiro proto-modernista da cidade foi aprovado para tombamento pelo CONDEPHAT municipal, mas o prefeito atual se recusa há anos decretar seu tombamento sem motivos reais, o que o coloca em risco caso haja privatização da empresa estatal.
Após a derrota dos paulistas na contra-revolução de 1932, a cidade fez erguer com donativos e inaugurou em 1938 no antigo Largo das Magnólias um monumento em homenagem aos 700 combatentes do Batalhão de Caçadores Francanos que participaram da luta e a praça tomou a denominação vigente até os dias de hoje: “Praça 9 de Julho”. Bem localizada entre a Praça da Matriz e o Mercado (que também abrigava um improvisado abrigo para os ônibus intermunicipais), a Praça 9 de Julho tornou-se importante polo comercial, com a instalação de lojas ao seu redor. Já nos anos 1950, tinha a Casa Única dos Irmãos Bittar, a Funerária Tedesco e uma unidade da importante rede Casas Buri.

No início dos anos 1950, o empresário do café Antônio Rodrigues Netto (avô da Atalie) contratou o engenheiro Carlos Zamboni (o mesmo que concluiu a igreja matriz) para construir uma das primeiras edificações modernistas do centro na esquina das Ruas General Telles com a Praça, que juntava habitação e comércio, um dos poucos que ainda resiste. No final dos anos 1950, na gestão do prefeito Onofre Gosuen, o velho mercado dos anos 1920 foi demolido e substituído pela nova estação rodoviária tendo aos fundos um novo mercado municipal com afrescos do artista Bassano Vaccarini, assim como a Praça David Ewbank foi reformulada.

No início dos anos 1980, o novo terminal rodoviário de Franca foi inaugurado próximo ao estádio do Palmeiras e o antigo virou terminal urbano por algum tempo, até ser demolido, assim como o velho mercado no mandato do prefeito Sidnei Rocha. Após muitas promessas não cumpridas de prédios para a cultura no local, na gestão seguinte o prefeito Ary Balieiro simplesmente asfaltou tudo e o “Largo do Mercado” virou um estacionamento. Os ônibus urbanos passaram a utilizar a Praça 9 de Julho como terminal, com o fechamento da Rua General Telles pelo calçadão. Na segunda gestão de Maurício Sandoval, foi implantado um sanitário público entre as coberturas dos ônibus. Já na segunda gestão de Balieiro, a administração municipal fez vistas grossas à introdução de barracas de vendedores na Praça 9 de Julho, que continua ocupada por eles até hoje, além de uma “rua interna” apenas para táxis que destruiu a antiga Praça David Ewbank. Somente no primeiro governo Gilmar Dominici foi erguido o atual terminal central de ônibus urbanos no lugar do antigo “Largo do Mercado”, em 2000.

Os diversos problemas da região central da cidade são conhecidos da administração municipal e só vem aumentando. Recentemente, verifica-se a deterioração e vandalização do quase centenário monumento aos combatentes de 1932 e do monumento da Praça David Ewbank, num evidente descaso do governo municipal com a memória urbana. A história do antigo “Largo das Magnólias” é um retrato eloquente do abandono de nossa história e do desastre urbanístico que vai se acumulando na região central pela ausência de políticas públicas de urbanismo, pela desestruturação da capacidade de planejamento da Prefeitura e por uma visão privatista dos espaços públicos da cidade.
A foto de 1940, de uma cidade bucólica que não existe mais, com as crianças brincando na praça, é um retrato do que a cidade poderia ou deveria ser, mas não é mais principalmente por conta das escolhas e decisões equivocadas de seus administradores recentes, não é um destino inevitável. Como otimista incorrigível, penso que ainda será possível uma reversão desse quadro após nos livrarmos da atual gestão municipal e de sua falta de imaginação com governos que priorizem ouvir as pessoas, requalifiquem espaços públicos com bons e vibrantes projetos e reocupem o espaço central da cidade com moradia de interesse social e ações culturais para que idosos, crianças e adultos utilizem com segurança e alegria sua rica infraestrutura, dando novos significados a viver no centro da velha Franca do Imperador.
Mauro Ferreira é arquiteto e urbanista, professor do curso de mestrado em Políticas Públicas da UNESP-Franca.
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