A inclusão de fachada e o preço da exclusão no futebol da Fifa
Por Guilherme Kalel
O futebol sempre se orgulhou de ser o esporte mais popular e democrático do planeta, uma paixão capaz de romper barreiras geográficas, sociais e econômicas. No entanto, as recentes decisões da Fifa para a Copa do Mundo de 2026 revelam uma face cruel e puramente mercantilista da entidade, transformando o discurso da inclusão em uma peça publicitária vazia. Ao inflacionar de forma absurda os ingressos para pessoas com deficiência e cortar direitos históricos, a federação internacional promove uma segregação econômica disfarçada de modernidade.
A disparidade dos números apresentados em uma reportagem especial do Diário PcD, Portal de notícias voltado a pessoas com deficiência, é assustadora. Na Copa do Qatar, em 2022, um torcedor com deficiência conseguia assistir a um jogo da fase de grupos desembolsando cerca de R$ 57,00, tendo ainda o direito garantido a um acompanhante gratuito. Em 2026, para sentar no setor acessível, esse mesmo torcedor precisa pagar impressionantes R$ 1.430 pelo seu bilhete. Para piorar, a Fifa extinguiu a gratuidade do acompanhante, obrigando a compra de um segundo ingresso. O resultado prático é uma conta de R$ 2.860 para que uma dupla assista a uma única partida, representando um aumento acachapante de 4.900%.
Dizer que o torneio oferece recursos avançados, como audiodescrição, salas sensoriais para autistas e interpretação em língua de sinais em todos os jogos, soa quase como uma ironia de mau gosto diante do bloqueio financeiro imposto na bilheteria. De que adiantam as mais modernas tecnologias assistivas se o público-alvo dessas ferramentas foi financeiramente banido do espetáculo? A acessibilidade física e sensorial perde completamente o sentido quando a acessibilidade econômica é destruída.
A estratégia da Fifa se torna ainda mais evidente e perversa com a redução em um terço do número de assentos reservados à acessibilidade, limitando a presença de cadeirantes a números irrisórios, como apenas 18 em determinadas partidas. Ao diminuir a oferta e elevar o preço a patamares proibitivos, a entidade deixa claro que enxerga o torcedor com deficiência não como um cidadão de direitos, mas como um espaço comercial menos lucrativo que precisa ser minimizado.
As duras críticas de autoridades brasileiras, como os senadores e deputados que se mobilizam para protestar formalmente contra a federação, são urgentes e necessárias. O esporte e o lazer são direitos humanos fundamentais, preconizados inclusive pela Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Tratar o acesso a um estádio como um produto de luxo voltado apenas a uma elite que pode arcar com aumentos abusivos é violar o espírito de igualdade que o próprio futebol deveria defender.
Como bem lembrado pelas lideranças políticas nacionais, o Brasil receberá em breve a Copa do Mundo Feminina. O episódio atual deve servir de alerta máximo e linha de corte para as autoridades do nosso país. Não se pode aceitar que entidades estrangeiras imponham em solo brasileiro regras que retrocedam nas conquistas sociais e segreguem nossos cidadãos.
A Fifa precisa entender que a verdadeira inclusão não se faz apenas com tecnologia de ponta para os poucos que conseguem pagar, mas sim garantindo que o direito de torcer seja viável e respeitado. Enquanto o lucro for o único guia de suas decisões, as arenas da Copa do Mundo continuarão sendo monumentos à exclusão.
Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor. Publlisher da Agência Visionpress. [email protected]







