Os olhos de Citrino

Havia duas formas de conferir as horas em Franca. A primeira, e muito conhecida, era o relógio de sol, aquele que o gigante Igorovitch derrubara e, tempos depois, fizeram uma esplêndida restauração.
O outro jeito era através de Citrino, o gato.
Num tom de laranja tão próximo do amarelo, com uma longa e fofa cauda, Citrino não tinha morada fixa como qualquer um teria. Já o viram no Efigênia, nas pistas de skate do Leporace, caçando pelo Jardim Zoobotânico e até cochilando na portaria da Santa Casa. A rosa dos ventos francana era toda palmilhada por Citrino.
Muitos falavam que ele deveria ser companhia da Chá Verde, vigiando a parte urbana da cidade, enquanto ela cuidava do meio ambiente. Que nada! Ele só prezava por barriga cheia e sossego, sempre com os olhos quase fechando igual a um pistoleiro do velho oeste.
Entretanto, havia algo que apenas uma pessoa tinha conhecimento: há muito tempo, em anos suficientes para quase tudo em Franca ser mato, Citrino fora amaldiçoado por uma bruxa.
E o que ele fez para receber uma maldição? Agiu como qualquer gato que quer atenção, ou às vezes apenas importunar. Manhas felinas.
Enfim, a dona da bruxaria cozinhava, em seu caldeirão, uma delicada poção de sono; se errasse, era bem possível nunca mais conseguir fazer. Ingredientes raros organizados e tempo precisamente cronometrado em uma ampulheta. Grão de areia de um lado, Citrino saltando, vidro espatifado.
Com as bochechas ardentes de raiva, a bruxa recitou nefastos augúrios e lançou a bruxaria sobre o gato, que, na ocasião, não entendeu nada, continuando a viver sua vidinha, a propósito muito longa e cansativa.
O que trazia canseira para Citrino era o chamado das horas.
Se alguém, em qualquer parte da região francana, falasse que queria ver o horário e exclamasse o nome do gato, Citrino imediatamente aparecia em frente à pessoa, abria bem os olhos como uma coruja, sentava sobre as patas traseiras e aguardava, não fazendo nenhum som.
E, para ver o horário correto, bastava a pessoa olhar no fundo dos olhos de Citrino e saberia, indubitavelmente, hora, minutos e segundos precisos. Depois, o gato ia embora sabe-se lá pra que lugar.
Óbvio, sendo uma maldição, havia consequências para quem usufruísse de Citrino: três longos dias de sonolência sem nunca conseguir dormir. Porém, não perderia o horário de compromissos. Quem sabe.









Um excelente conto para inaugurar o dia ao lado de uma xícara de café. O Realismo mágico presente nas ruas francanas desperta a imaginação para um novo olhar sobre a cidade que é o ator principal das reflexões matinais.
Adorei conto do gatinho hehehe tô achando que sei quem e bruxa
Que conto mais fofo 🥰🥰🥰
Adorei de mais!
Mesmo com a maldição e cansado, Citrino ainda percorria toda a cidade… Muito fofo a demonstração no conto de como nada impede esse gatinho.
Lá na Cidade dos Miguéis existe uma antiga técnica chamada de “relógio vivo” que se baseia em observar as mudanças nos olhos dos gatos conforme a luz do sol varia.
Quando o escritor francês Charles Baudelaire visitou a cidade, ficou encantado e escreveu o conto “O Relógio”, baseado na experiência de verificar as horas pelo olhar dos gatos.
Achei muito criativa a ideia do Citrino ( tenho fraco por gato amarelo) ser uma espécie de relógio vivo da cidade. O texto tem uma vibe mágica e ao mesmo tempo bem acolhedora, como aquelas lendas urbanas que parecem existir de verdade. E gostei da personalidade dele, todo cansado e indiferente mas ainda assim marcante.
Atrasar depois ou atrasar no momento, ai está a questão kkkk
Não foi a bruxa de Franca da historia passada, pois aquela era gente boa, adoro contos com gato, espero que além de horas também aconteça de prolongar a vida do bichinho.
Parabéns pelo rabisco, fico no aguardo xD
Amei o conto!
Acho que preciso de um Citrino, pra não me deixar perder a hora, pelas manhãs.🤭