O joelho da bruxa

Como toda bruxa que viveu sobre as perseguições da Inquisição e seu Martelo na Europa, Carmesim deixou aqueles ermos e procurou um local mais sossegado no Novo Mundo, visando as matas mais ao sul do imenso continente.
Peregrinou com sua vassoura por muitos meses, evitando os territórios já reivindicados por outras bruxas que chegaram bem antes e possuíam a devida vantagem. Enfrentando um temporal daqueles, encontrou um excelente abrigo na região dos Kaypó Meridionais e, por não possuir desavenças com eles, decidiu fazer ali seu lar.
Até que durou bastante a calmaria que prevaleceu naqueles longos anos. Carmesim era vista como uma entidade protetora da floresta e ninguém a perturbava. Ela ali, eles lá… Contudo, surgiram os exploradores com suas armas de fogo: expulsão, massacre e escravidão para os Kayapó. A bruxa interferiu onde pode, salvando famílias e as enviando para bem longe…
Lá pelo século XVIII chegaram os bandeirantes e no Sertão do Capim Mimoso se fez o Pouso dos Bagres. Carmesim construiu uma cabana no aclive de uma das colinas e viveu bastante tempo como curandeira da região. Cansou, viajou para outros cantos do mundo e manteve jornada por mais de século.
Um dia voltou, e o Pouso era cidade.
Haviam tantas ruas! Bairros, centenas de pessoas! Sondou, estudou e assimilou como se camuflar na adaptação dessa nova sociedade. Até conseguiu uma casa no Jardim Boa Esperança! Se sentia uma francana autentica.
Raramente fazia suas bruxarias, evitando chamar atenção e qualquer dor de cabeça. E Carmesim se divertia muito com essa rotina, amando viajar, ir em shows, conhecer novidades!
Um dia cismou com karatê e lá foi ela ter aulas. Não tendo o hábito de exercícios físicos, sofreu mais do que imaginava. Elasticidade? Nenhuma! Em duas semanas seu joelho pedia clemência e férias permanentes.
– Como que pode doer tanto? – reclamou Carmesim enquanto mancava da cozinha para a sala. – Eu, em!
Recitou palavras de uma antiga bruxaria e estendeu as mãos sobre o doloroso joelho: como uma chama que se apaga com um sopro, a dor desapareceu completamente… junto com seu joelho. Carmesim estava sem aquela articulação!
E ela se lembrava da bruxaria para reverter o mal feito? Claro que não! Sabia quais bandas se apresentariam por todo aquele ano, mas nada que lhe trouxesse o perdido joelho.
Teve que apelar por ajuda. Esperou a madrugada, montou em sua vassoura e voou até a companheira de bruxaria mais próxima.
– Durante três ciclos da lua você beberá essa poção – orientou a bruxa amiga. – E terá que buscar um curandeiro humano para fazer fisioterapia. Será um joelho novo, vai ter que reaprender a usar.
Pouco mais de três meses depois, estatelada em uma praça, Carmesim uivava de dor por todo o corpo esfolado: tentava aprender a andar de skate. E lá se ia mais recuperação e um cadinho de bruxaria. Teimosa!









Ahhhhhhh eu amei, que conto! Mas por trás tem um significado lindo, a teimosia faz a gente viver o agora!
Um conto cheio de simbolismo e mistério. O “joelho da bruxa” vai além do literal e parece representar marcas e dores que a gente carrega sem perceber. Fica aquela sensação de inquietação boa, que faz a história continuar na cabeça mesmo depois do fim.