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Açúcar derretido

Com seu belo porte, alinhado em fortes quartos traseiros, o pastor belga atravessava duas quadras da rua São Luiz em poucas goladas de água fresca. Era tão rápido que Caramelo mal conseguia alcançar dois terços do trajeto e o belga já estava voltando.

– Bela tentativa – gracejava o belga com o focinho empinado, olhando com veemente desdém para Caramelo.

Abanando o rabinho pela atenção recebida, Caramelo nada respondia, orgulhoso de si por ser amigo daquele incrível animal. Para ninguém, além de Caramelo, ele dirigia a palavra, nem mesmo ao tonto Pompom, um poodle grande e mal-humorado. Claro, às vezes o belga acenava para Sereno, mas era exceção: todos tinham respeito pelo cão mais velho do bairro.

 E se existiam outros bairros além do Brasilândia, Caramelo acreditava que sim, todavia não tinha nenhum pouco de coragem e vontade para atravessar a av. Adhemar Pereira de Barros. Para quê? Certa vez tentara e uma motocicleta roxa quase o atropelara! Não, não, não! Ele estava muito feliz onde nascera e crescera, sem precisar dessas presepadas.

Logicamente ele tinha sonhos, como correr tão rápido quanto o pastor belga, por exemplo. Ou latir tão forte, ou ter pelos tão lustrosos! Imagina conseguir ter um faro tão apurado quanto seu melhor amigo belga? Isso sim era um cachorro, bem diferente do idiota Pompom.

Numa manhã em que se sentia animado, Caramelo saiu de fininho pelo portão de sua casa, implicou com o poodle, saudou Sereno e, arreganhando os dentes num quase sorriso, saltou correndo atrás de Belinho, o gato da vizinha.

O bichano não ficou esperando para escrever carta, emendando um carreirão até a rua Vitória e quase sumindo da vista de Caramelo. Ele latiu atrás, sem perder fôlego um só segundo, desembestando até alcançar a esquina da rua Fortaleza e trombando de cara com uma criança assustada. Suas patas fraquejaram enquanto sentia as coisas rodarem; porém não parou quieto, seguindo o rumo que acreditava que o gato estava.

Caiu chuva, daquelas que vem de uma vez em todo o vento, força e gotas generosas.

Muito desnorteado e sentindo aquela umidade se esparramar pelo corpo, Caramelo fez o que pode para conseguir abrigo, se esgueirando por calçadas e muros, quase sendo carregado pela enxurrada.

Quando finalmente se sentiu protegido, a chuva foi embora. Ele arqueou a cabeça sacudindo a água, movimentou as orelhas, farejou o ar: não conhecia aquela praça, aquelas árvores, nenhuma daquelas ruas! E para piorar um cachorro de pelagem comprida e de porte bem maior que o belga, se aproximou quase instantaneamente, tanto que Caramelo se encolheu todo. Não era possível ser tão rápido!

– Ei, moleque! O que está fazendo no meu território?

Que voz era aquela? Ressoou por todo o Caramelo em um estrondo. Quase ganindo, respondeu que estava perdido, que morava na São Luiz e que não queria encrenca… O desconhecido cachorro rosnou, eriçou os pelos pronto para o ataque.

– Acalma o bigode, cara de carrapato! – era um salsichinha que se interpôs entre os dois cães. – O rapaz já falou que está perdido. Pode deixar que eu o levo para casa. Ou vamos ter que… dialogar?

O cachorro maior olhou confuso, fingiu coçar a orelha e foi embora sem reclamar. Indiferente, o salsichinha chamou Caramelo e o escoltou até a esquina de sua casa.

– Depois que derrubei uma moto, esse povo começou a me respeitar – comentou o salsichinha se despedindo. – Ó, se cuida, tá? Um dia desses apareço por aí!

Caramelo se sentou sobre as patas traseiras, disse adeus e aguardou até que o cachorro esticado desaparecesse no cruzamento. Olhou para sua rua e observou a metideza do belga. Tendo a confiança de que ele não era isso tudo, se sentiu satisfeito consigo. Afinal, Caramelo nem sabia o nome do seu “melhor amigo”…

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

9 Comentários

  1. História envolvente e muito bem escrita! Adorei a reviravolta do Caramelo percebendo que o seu ‘ídolo’ talvez não fosse tão incrível assim após conhecer a bravura do salsichinha.
    É muito legal perceber que seus contos conversam entre si 🥰

  2. Que texto gostoso de ler! Dá até vontade de sentar na calçada e ficar observando a vida dos cachorros do bairro passando. Imagina só que coisinha linda um salsichinha mandando na cachorrada, e gostei que o caramelo viu que o belga nem é tudo isso!

  3. “Ou vamos ter que… dialogar?” maravilhoso kkkk
    Essa história conecta com aquela da entregadora, que show! Uma leitura rabiscada agradável e divertida, parabéns, gostei muito mesmo, continue…

  4. Ai amei um conto sobre cachorrinhos ainda mais famoso caramelo adorei a história e melhor é o salsichinha mesmo pequeno consegue ser corajoso

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