Passer Domesticus

Pudim e Cascata acordaram bem cedo naquela manhã. O dia de pagamento ocorrera na sexta, então era certeza que o centro estaria cheio e eles não poderiam perder vendas.
Jogaram água no rosto, um café-da-manhã de pão dormido, pegaram as caixas de chiclete e subiram pela Saldanha Marinho até a Monsenhor Rosa. Sendo os primeiros a chegar, se acomodaram no semáforo próximo ao calçadão da General Telles; e mãos à obra.
Enquanto as duas crianças corriam de carro em carro para conseguir alguns trocados, Passer empurrava seu carrinho de feira pela praça central. Gritou bom dia para a dupla, acenou para algumas ciganas e, escolhendo um canto próximo à fonte, estacionou seu carrinho.
– Bom dia, minhas senhoras – saudou Passer as musas enquanto se curvava retirando seu chapéu coco.
Outono, Inverno e Verão responderam cordialmente com uma graciosa reverência, porém Primavera cruzou os braços, empinou o nariz e desviou o rosto para o outro lado.
– Que falta de bons modos! – ralhou Inverno.
– Não deixe que ela te aborreça, Passer – comentou Outono revirando os olhos. – A estação dela está na última semana e ela não aceita.
Passer deu de ombros e riu enquanto pegava um pequeno banco e um compacto fogão de dentro de seu carrinho. Acendeu fogo e colocou uma chaleira para ferver água. Puxou um par de sapatos, muito maiores que seus pés e os calçou sobre velhas meias listradas.
Algumas pessoas começaram a demonstrar curiosidade, se aproximando devagar, com receio. Quando muito, enquanto Passer colocava um colete sobre a camisa também listrada, o pequeno grupo logo se tornou um público ansioso para saber o que viria a seguir.
Júbilo para Passer que calmamente colocava suas luvas de dedos furados e passava seu cafezinho. Bebeu um gole, estralou a língua e ofereceu para os curiosos que não aceitaram, ainda muito desconfiados.
– Prestem atenção! – gritou Passer para sua plateia.
Estendeu o polegar direito, colocou na boca e soprou com muita força: imediatamente seu nariz arredondou, ficou vermelho, vermelho que nem tomate. Passer não esperou que as reações diminuíssem e já foi logo anunciando que conseguia ler mentes! E leu de cinco pessoas na sequência!
Sacou um baralho de cartas, fez vários truques de mágica e quando cansou disso, jogou todas para o alto que inflaram em cinquenta e quatro balões coloridos voando pelo céu de Franca.
– Por hoje é só, meu povo! – pegou o chapéu e foi em direção à plateia. – Quem tiver gostado, ajuda com algum trocado! – piscava, dava piruetas e nada de moedas.
No momento em que estava para passar o chapéu pela última vez, Pudim e Cascata, se acotovelando no meio do público, conseguiram aproximar e colocar algumas moedas para Passer. Ele olhou no fundo dos olhos das crianças, como se não houvesse mais ninguém por perto e disse:
– Obrigado – e sorriu com gosto.
Deu um mortal para trás, bateu palmas e numa explosão de penas, Passer e suas coisas sumiram no ar.
Uma singela homenagem ao palhaço Pardal e todos os artistas de Franca









Ahhh que fofinhooo 💕🥹
Irmão, só poderia vir de suas mãos e mente esse conto maravilhoso, ilustrando de forma verbal um dos momentos mais marcantes da minha vida profissional. Enquanto palhaço, essas primeiras moedas me encorajaram a continuar fazer praça. Seu conto coloriu essa memória com um frescor e uma leveza necessária!!! Obrigado pela honra de ser elemento entre suas letras, meu amigo escritor e também palhaço!!!
Uma linda homenagem a nossos artistas de Franca eles merecem
Caraca, o quanto é difícil é real a imagem de uma plateia não ajudando, e quem está na menor que os demais querer ajudar muito mais.
Fantástica e bonita história, meu caro rabiscador! Gosto de como conheço bem os pontos de Franca sem nunca ter visitado a cidade.
Que texto mais encantador! 🥰 A forma como você descreveu esse personagem e essa homenagem aos artistas de Franca é simplesmente linda — aquece o coração e faz a gente sorrir. Obrigada por espalhar tanta poesia nesse sábado! 🌟
Gratidão 🥰
Linda homenagem 👏🏻🥰!
Parabéns mais uma vez !!!
👏🏻👏🏻👏🏻
O palhaço é um artista que combina humor, expressão corporal e improvisação para entreter e emocionar públicos de todas as idades.
Todavia, sua atividade vai além do simples entretenimento.
Parabéns amigo escritor, vc descreveu o que muitos sentem, mas não conseguem dizer.
Que homenagem maravilhosa. E o conto surpreende dando a entender que o protagonista não seriam os meninos.
E um conto sobre perseverança e da forma como somos vistos e valemos para alguém nesse mundo.