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Nova morada

Vindos de Fortaleza de Minas, cidadezinha escondida entre morros de pedreiras, a família se acomodou em uma casa dos fundos na Rua Anésio Rocha. A casa era pequena para quatro pessoas, com dois quartos e uma sala no meio; a cozinha se improvisava do lado de fora, embaixo das sufocantes telhas de fibrocimento, deixando fogão e geladeira expostos às intempéries.

O pai não esperou um dia sequer: calçou a cara e, percorrendo com um conhecido as ruas do Jardim Portinari, conseguiu serviço de boia-fria. A mãe, um tanto assustada com a nova cidade, juntou os dois filhos e organizaram as coisas da mudança da melhor forma que conseguiam.

E como a mudança ocorrera no fim do ano letivo, depois de ajudarem na organização, os filhos foram liberados para explorar a rua. “Mas é para ir só até a esquina!”

O irmão mais velho, pouco mais de quinze anos de idade, olhou a rua desalentado e desmotivado com aquela estranha Franca que não apetecia um amigo sequer. Atravessou a rua e se sentou em um banco de madeira, suspirando fundo por pequenas saudades.

Mangotinha, a caçulinha de nove fofos anos, correu atrás do irmão, segurando o encardido ursinho de pelúcia pelos braços e ficou de pé, observando um barranco que declinava até um campinho de futebol de pura terra arenosa. Seus olhos, pequenos e acastanhados, se perdiam na confusão das novidades de ruas, casas, plantas, pessoas… tão diferente e grande.

Com cuidado, colocou a mão no bolso do vestido e de lá trouxe seu tesouro: uma grande semente de abacate:

— Você vai plantar? — perguntou o irmão apoiando o queixo sobre a palma da mão. ]

Segurando a semente acima da testa, Mangotinha concordou com um alegre sim.

— Então temos que fazer uma covinha para ela — continuou o irmão se levantando e, com um graveto, começando a cavar um buraco. — A calçada é de terra e já tem esse tanto de árvores. Acho que ninguém se importará com mais uma. Corre lá em casa e pede pra mamãe um pouco de água.

Demorou alguns minutos, mas logo Mangotinha voltou, sofrendo para carregar uma jarra de água que teimava em entornar sobre seus pés. Ajoelhou ao lado do irmão e, com sua orientação, umedeceu a terra, revolvendo e colocando a semente para se aninhar quietinha.

— E agora? — perguntou Mangotinha com o dedinho na bochecha.

Afastando a irmã uma certa distância, pediu para que esperasse. Ela, ansiosa, assustou quando o solo mexeu e uma plantinha esverdeada nasceu, espreguiçou, pediu licença e cresceu. Não parou até alcançar a altura dos postes de energia.

Os arquejos e gritinhos sorridentes de Mangotinha preencheram a tarde que sumia junto ao sol preguiçoso. Ela correu, tropeçou, ralou o joelho, mas conseguiu chegar ao tronco da árvore que recém-nascera. Estendeu a mão e, temerosa, tocou a casca áspera. A árvore estremeceu em uma gargalhada, deixando um abacate novinho cair ao lado da menina.

Mangotinha agradeceu extasiada. E naquele mês inteiro, todos os dias o abacateiro lhes presenteava com vários frutos maduros que a família comia em ambas as refeições. Até que o mês findou, o pai recebeu o salário e foram ao mercado abastecer a empoeirada despensa…

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

15 Comentários

  1. Que texto gostoso de ler! Dá pra sentir o carinho e a esperança em cada detalhe dessa nova fase. Mudança nunca é fácil, mas é bonito ver como tudo vai ganhando sentido aos poucos, até uma sementinha plantada vira símbolo de recomeço.
    Histórias assim aquecem o coração e fazem a gente lembrar que lar é aquilo que a gente constrói no dia a dia.
    Obrigada por compartilhar!

  2. Estou anestesiada, meu coração na boca e olhos cheio de lágrima, o começo de uma história e sempre dolorida e nos ensina a da valor nas mínimas coisas. Senti a emoção embalada em meu coração em forma de amor e esperança

  3. Mudanças são sempre difíceis mas a esperança de dias melhores aliada a inocência sempre nos da motivos pra seguir adiante, essa história me lembra muito a de um amigo que teve de recomeçar em uma cidade grande e desconhecida, um amigo que tenho bons lembranças que carrego com muito carinho

  4. Mudanças são difíceis, mas sempre dá pra começar de novo, esse conto traz a perspectiva que literalmente é tudo questão de perspectiva. Aguardando pelo próximo.

  5. Amei a história! Ela demonstra que, por mais desafiador que seja enfrentar algo novo, sempre é possível manter a esperança de superar essas situações.

  6. Aaah que leitura que esquenta o coração, um texto que parece simples à primeira vista, mas vai criando raízes enquanto a gente lê. A mudança, o estranhamento da cidade nova e a relação entre os irmãos são muito bem desenhados, tem uma ternura silenciosa aqui que aperta o peito. Gostei demais!

  7. Que lindo, amei !!!
    Me senti dentro da história kkkk,como sempre nos surpreendendo caro escritor !!!
    Parabéns 👏🏻 👏🏻 👏🏻

  8. Rsrs, 😭, 😄, se alguém vir um abacateiro plantado na calçada, pode lembrar , é o abacateiro da Mangotinha . Uma só semente plantada e olha só quantos frutos , isso nos ensina a repensar em nossas sementes , o que estamos plantando é o que vamos colher , por isso , plante sempre o amor , a generosidade, a esperança…
    Tenha sempre o coração grato !
    Parabéns ao escritor , continue nos presenteando com seus contos.

  9. Texto incrível, Junior! Como moradora de Franca, é muito legal ver bairros como o Portinari servindo de cenário para uma história tão tocante. Você conseguiu transformar uma situação comum de migração em algo mágico. A ‘Mangotinha’ é uma personagem que cativa logo de cara. Continue escrevendo!

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