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Quem é Tereza de Benguela hoje? A luta viva da mulher negra no Brasil

Por Marília Martins

Nesta semana em que celebramos o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, volto meu pensamento e meu coração para Tereza de Benguela — uma mulher negra, quilombola, líder, estrategista, guerreira. Sua existência é um grito de resistência que atravessa séculos. Mas me pergunto, com os pés fincados na terra e os olhos voltados para o agora: quem é Tereza de Benguela hoje?

Peço licença para tocar nossa raiz coletiva, para abrir espaço e honrar a dor e a potência das que vieram antes. Porque a luta da mulher negra não começa agora — ela é antiga, mas segue urgente. Hoje, Tereza está nos rostos anônimos das mulheres que vemos todos os dias: sobrecarregadas, exaustas, mas firmes. São as mães solos, trabalhadoras, cuidadoras. Em Franca, são mais de 60 mil mulheres cadastradas no CadÚnico. Mais da metade delas são chefes de família. E isso sem contar aquelas que cuidam de filhos, pais, avós, pessoas com deficiência e atípicas. Mulheres que carregam o mundo nas costas — sem romantismo, sem alívio.

A sociedade insiste em romantizar a força dessas mulheres. Mas a verdade é que ser “guerreira” virou um fardo. Ninguém quer mais lutar sozinha. Não queremos aplauso por resistir, queremos viver com dignidade. As mulheres negras têm reconstruído saberes, reconectado histórias e mantido vivas as causas que sustentam nosso povo. Elas fazem isso mesmo quando o Estado vira as costas. Mesmo quando o mundo as ignora.

A mulher negra de hoje sente na pele a dor coletiva de uma ancestralidade sequestrada, apagada, silenciada. Mas também carrega dentro de si a chama viva da reparação, da memória, da justiça. É aqui que me encontro com Sankofa — o princípio africano que nos ensina que é preciso voltar ao passado para resgatar o que foi esquecido, para seguir em frente com mais consciência. Não há futuro possível sem memória. E memória para nós é resistência.

É também nessa travessia que nos guiamos por Ubuntu: “eu sou porque nós somos”. Somos um corpo coletivo de vozes, dores, alegrias e esperança. A mulher negra é parte do todo, mas também é sua espinha dorsal. Se hoje há escolas, postos de saúde, comércios e comunidades funcionando, é porque há uma mulher negra por trás segurando tudo isso de pé.

Tereza de Benguela vive. Vive em cada mulher que acorda cedo para alimentar sua casa. Vive na menina preta que sonha com a universidade. Vive na senhora que canta pontos de terreiro para manter a fé. Vive em mim, vive em você. Que essa data seja mais do que uma celebração: que seja um chamado. Por justiça, por equidade, por reparação. Que a luta das mulheres negras seja respeitada não só por sua força, mas por sua humanidade.

Porque enquanto a mulher negra não for livre, ninguém será.

Marília Martins é vereadora e integrante do Fórum Franca Sustentável

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