Euforia, energia e empatia

Enganos.
Autoenganação.
Uma realidade que ninguém quer enxergar.
Tomar bala ou MD no Intermed não é normal.
Beber diariamente não é “coisa de estudante de medicina”.
Usar Venvanse para estudar não é uma solução. E, no entanto, isso está acontecendo. Mais do que nunca.
É um reflexo de algo muito maior: a fuga da realidade diante de uma pressão esmagadora.
Por que isso está acontecendo?
A faculdade de medicina é um ambiente de alta pressão constante. Há décadas, a sociedade romantiza a exaustão do estudante de medicina, como se ser o último a sair da biblioteca ou estudar sem dormir fosse um símbolo de sucesso. Mas essa narrativa é tóxica e tem um preço alto.
1. A Pressão Acadêmica Implacável
• Horas intermináveis de estudo para provas que parecem nunca ter fim.
• A cobrança por excelência nos estágios e plantões.
• A necessidade de absorver uma quantidade inumana de informações.
2. A Realidade dos Pacientes
O primeiro contato com a dor, o sofrimento e a morte é marcante. Os estudantes, ainda em formação, não têm o preparo psicológico para lidar com isso. Em vez de processarem suas emoções, muitos procuram entorpecer a mente.
3. Competição e Comparação
A comparação entre colegas gera insegurança constante: “Será que estou ficando para trás? Por que não sou tão bom quanto eles?”. Em um ambiente tão competitivo, mostrar vulnerabilidade é visto como fraqueza. Assim, ao invés de pedir ajuda, muitos preferem disfarçar com substâncias.
O que realmente está acontecendo?
O uso de drogas, álcool e estimulantes está sendo normalizado como solução para:
• Descontrair após um dia pesado → “Vamos tomar algo para relaxar.”
• Socializar e “esquecer os problemas” → “É só uma festa, todo mundo usa.”
• Aguentar a maratona de estudos → “O Venvanse vai me ajudar a focar.”
Mas mascarar a dor, o cansaço e a insegurança com substâncias cria um ciclo perigoso:
1.O uso começa como um escape pontual.
2. A frequência aumenta à medida que o peso da rotina se intensifica.
3. A dependência psicológica se instala, e o comportamento se perpetua.
Essa é uma luta silenciosa, muitas vezes invisível, mas que não termina na faculdade. O que começa como um hábito para sobreviver aos anos de graduação pode se tornar um padrão no exercício da medicina. A realidade o mostra. Muito triste.
O Impacto na Saúde Pública
Nos próximos anos, o Brasil terá cerca de 50 mil novos médicos formados por ano. Um exército deles carregando cicatrizes invisíveis desse período de formação. Pergunta-se:
• Como podemos esperar que esses profissionais cuidem dos outros se eles mesmos não estão bem?
• Qual será o impacto na qualidade do atendimento e na saúde pública?
Um médico cansado, emocionalmente esgotado e com hábitos prejudiciais não consegue oferecer o cuidado que o paciente precisa. A medicina começa no autocuidado desse facultativo.
O Que Precisamos Fazer?
O primeiro passo é parar de tratar esse comportamento como parte do jogo. Precisamos abrir o diálogo, desestigmatizar a vulnerabilidade e reconhecer que estudantes e médicos também têm limites.
Soluções Possíveis:
1. Apoio Psicológico Estruturado
2. Revisão da Cultura Acadêmica
3. Educação Preventiva
4. Liderança Consciente
É uma ação de solidariedade inadiável, a começar pelo Ministério da Saúde, Ministério da Educação, Secretarias Estaduais da Saúde, Secretárias Municipais da Saúde e afins, universidades, corpos acadêmicos e pais.
O sinal de alarme tocou. Estamos atrasados.
A ‘droga do amor’ é fatal.








