A arte de ouvir
Por André Moreira
“Responder antes de ouvir, é estultícia e vergonha…” (Provérbios 18.10-13)
Vivemos numa sociedade onde as pessoas gastam mais tempo falando do que ouvindo. Há na atualidade uma paixão quase mórbida pelo protagonismo de ideias, onde é considerado melhor quem fala mais. O mundo moderno nos impele sempre a mostrar que nosso ponto de vista é o correto ou o melhor. Tristemente essa postura reflete um grave problema: o nosso desejo de dominar a outra pessoa é maior do que a nossa capacidade de ouvir as opiniões ou emoções alheias.
Algumas pessoas são tão rápidas em falar sobre coisas que pouco conhecem que se esquecem de “enxergar” a voz do outro. O apóstolo Tiago disse: “ouça primeiro e fale depois, e não deixe que a ira tome o controle” (Tiago 1.19). Só podemos falar, dar opinião sobre aquilo que ouvimos. Procurar os fatos é exercício muito melhor do que saltar para as conclusões. A verdade nua pode ser embaraçosa, mas é libertadora e só é acessada quando nos permitimos ouvir. A verdade às vezes dói. Mas não há remédio melhor para aquele que fala do que ouvir a verdade sobre os seus problemas. Quando você responde com argumentos e fundamentos, por mais que a resposta doa, aquele que busca a resposta se sentirá abraçado por você.
Para finalizar, gostaria de citar Rubem Alves. Ele falou muito sobre a arte de ouvir. E ele diz assim em um texto seu chamado a “Arte da Escutatória”:
“A alma é uma catedral submersa no fundo do mar e quem faz mergulho sabe que a boca fica fechada. Nesse momento somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a ideia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia que de tão linda nos faz chorar. Pra mim Deus é isso: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto”
Exercite o silêncio. Para com os homens e para com Deus, deixe-o falar com você. Ele fala das maneiras mais inusitadas. O profeta Elias esperava uma voz forte, destruidora, mas a voz do Senhor estava no silêncio (leia 1 Reis 19.11,12). A mesma coisa ocorre com aqueles que nos procuram. Nem sempre sua voz está no que dizem, mas nas atitudes, afinal de contas, alguém já disse “o corpo fala”. Você reclama do seu casamento, que falta comunhão, que seu cônjuge não te ouve? Mas você já o ouviu? Você se irrita porque seu filho só vai mal na escola? Mas você já se colocou no lugar dele? Seus funcionários não ficam muito tempo com você e saem da empresa? Procure ouvi-los! Procure ouvir o seu próximo, “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Abra seus ouvidos e Deus lhe abrirá seu coração.







Muito bom! Excelente artigo!
Muito agradecido pelas Palavras. Ótimos conselhos.
“A verdade nua pode ser embaraçosa, mas é libertadora e só é acessada quando nos permitimos ouvir.”
Ótima reflexão
Saber ouvir é indispensável para todos e produz seus frutos. Aliás, uma “arte” como diz parte do título. O próprio conselho de Tiago (1.19) é para que estejamos prontos para ouvir. Falar ou responder, depois de refletir bem sobre o que ouviu e, em último caso, irar. Mas esta última ação provavelmente não ocorrerá se os passos anteriores forem seguidos.
Deus o abençoe. André, pela reflexão…
Realmente, somos ávidos em responder. Em contrapartida a arte está em ouvir.
“Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia…”. Não sei porque, mas gostei disto” rsrs…
Há uma música do Padre Zezinho que tem um trecho que diz: “Filosofia não me deu felicidade, explicação não explicou o que eu senti…” Apesar da “crítica”, vejo a Filosofia (ou os Filósofos) com maior capacidade de ouvir do que de falar, mesmo que a arte da fala lhe seja muito mais propícia que aos demais!
Parabéns por mais um brilhante texto!